
A timidez faz com que revelar inquietações muito íntimas seja um desafio para a poeta. No entanto, “é difícil explicar as intenções da poesia”, e os versos, que antes eram guardados apenas para si, passaram a pedir publicação. A partir desse momento, a “coragem de compartilhar com o mundo aquilo que nos atravessa” substituiu o medo da exposição. “Nasci pela segunda vez/ e quando fiz meu parto/ nua fiquei. / as mãos tremiam. / Inacreditável/ que eu pudesse gerar a mim mesma. / um feto desajeitado”, escreve Graci Apolinário no poema que abre “Nudez” (Editora Autoria), título lançado na última terça-feira. Em suas páginas, memórias, desejos, perdas e afetos são revisitados por meio de uma escrita sensível e potente.
“A nudez representa a possibilidade de sermos quem desejamos ser, diante de nossas angústias, acertos e erros, amores e desamores, sem perder de vista nossa ancestralidade. Nascer de novo significa lançar um olhar nu para si, para a própria intimidade, e reconhecer a capacidade humana de se reconstruir diante das quedas da vida e das consequências das próprias escolhas. É um processo de reconhecimento, desconstrução e liberdade. Dói, mas, depois que a gente nasce por si mesmo, a gente é mais feliz”, assevera a escritora mineira, que é formada em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora.
Em 2023, ela conversou comigo como professora e organizadora de “Como outra qualquer”, coletânea de contos produzidos dentro do projeto “Jovens escritores”, realizado com estudantes da Unidade Prisional de Santos Dumont. Foi ali que descobri que Graci escreve desde os 12 anos e que, se seus alunos tiveram a vida modificada por meio daquela iniciativa literária desenvolvida no cárcere, ela não saiu incólume da experiência. Aprendeu, com eles, que já era hora de se mostrar como escritora. Pouco tempo depois, nasceu “Por dentro”, sua estreia na literatura.
“Enxergo minha trajetória literária como um processo contínuo de amadurecimento, descoberta e transformação. Cada obra representa um momento dessa caminhada. ‘Por dentro’ marcou meus primeiros passos como autora. ‘Como outra qualquer’ ampliou meu olhar para a potência da escrita coletiva e para a importância de dar voz a outros autores. Já ‘Nudez’ representa um mergulho mais profundo na minha própria escrita, na subjetividade e nas complexidades da alma humana”, confidencia ela, certa de que sua caminhada até aqui vai além dos livros que publica. “Ela também se constrói pelos encontros que a literatura me proporciona e pelas possibilidades de transformação que ela oferece.”
“Nudez” pode ser adquirido nas redes sociais de Graci Apolinário e da Editora Autoria.
Marisa Loures — Em 2023, quando conversamos sobre o projeto “Como outra qualquer”, você me contou que escrevia desde os 12 anos, mas ainda não havia encontrado coragem para publicar seus textos literários. Depois, você lançou “Por dentro”, e, agora, lança “Nudez”. O que aconteceu nesse intervalo e em que momento a escrita, que, durante tanto tempo permaneceu guardada, passou a pedir publicação?
Graci Apolinário — Durante a publicação de “Como outra qualquer”, tive a oportunidade de conhecer melhor os bastidores do universo editorial e acompanhar de perto a produção de uma obra, já que a coletânea nasceu de oficinas de escrita criativa que desenvolvi e ministrei. Nesse período, algumas pessoas começaram a me perguntar sobre minha escrita, afinal, eu incentivava meus alunos a escrever e a publicar, mas ainda mantinha meus textos guardados. Foi então que criei coragem para mostrar alguns deles à Carol, que já havia me convidado a compartilhar minha produção. Naquele momento, ainda não tinha a intenção de publicar, mas, olhando hoje, percebo que aquele foi meu primeiro passo. Acredito que a coragem dos meus alunos tenha despertado a minha. Ao vê-los ocupando seus lugares como autores, compreendi que, assim como criava projetos para dar voz a outras pessoas, também poderia permitir que minha própria voz chegasse ao mundo. Foi assim que nasceu “Por dentro” e, seguindo esse caminho de descobertas e amadurecimento, chego agora a “Nudez”.
Carol Canêdo afirma, no texto de apresentação de “Nudez”, que você demonstrou uma coragem ainda maior ao encarar a própria escrita, olhar para dentro e compartilhar o que encontrou. O que foi mais difícil nesse processo de se expor como escritora?
A timidez e a transposição do particular para o coletivo. Acho mais fácil conduzir uma aula do que falar dos meus próprios livros, mas, depois que começo, eu sigo. É difícil explicar as intenções da poesia, especialmente porque a minha nasce de afetos, inquietações, dores e descobertas, de sentimentos profundos. Minha matéria-prima é a alma humana. Foi percebendo isso que decidi conceder a mim mesma a voz que sempre incentivei meus alunos a encontrar: a coragem de compartilhar com o mundo aquilo que nos atravessa.
Alessandra Bastos observa que os poemas parecem nascer de um processo de elaboração, no qual memórias, desejos, perdas e afetos são revisitados. Como se deu esse processo de transformar vivências em poesia?
Eu me considero uma pessoa muito sensível, talvez por isso tenha escolhido a poesia como meu gênero literário. Vejo essa sensibilidade como uma forma de existir no mundo, e foi preciso aprender a elaborar os sentimentos para não me afogar neles. A escrita se tornou um caminho para transformar essas experiências em linguagem poética. Gosto de investigar minha subjetividade e encontrei em “Nudez” um espaço para aprofundar esse processo, já que a obra foi pensada para falar sobre aquilo que nos atravessa, sobre o que silenciamos e sobre o que ainda não sabemos de nós mesmos. Mas escrever sobre a alma humana não significa escrever apenas sobre a dor. Significa também reconhecer a beleza, o desejo, a liberdade, o amor e a potência de existir.
Por falar nisso, há imagens que retornam ao longo dos poemas, como o nascimento, a cegueira, o corpo, a casa, as marcas da infância e a relação com a mãe. Ao revisitar essas lembranças, você também modifica a maneira como compreende sua própria história?
Sim. Acredito que, assim como acontece quando lemos um livro repetidas vezes, cada leitura é única, porque o leitor nunca é o mesmo: estamos sempre em momentos diferentes da vida. Com a escrita, acontece algo semelhante. Revisitar memórias é também atribuir novos sentidos às experiências vividas. A escrita transforma nossa percepção do passado, assim como um artesão que, ao talhar um bloco de matéria bruta, revela novas formas e significados.
Em vários poemas, você aborda experiências de sofrimento, silenciamento e relações que deixam marcas profundas. Em “Cansei”, por exemplo, escreve sobre o peso das expectativas herdadas e sobre a necessidade de deixar de ocupar lugares que não lhe pertencem. Escrever sobre essas experiências foi uma maneira de questionar aquilo que aprendemos a aceitar como natural?
Sem dúvida. Acredito que, muitas vezes, naturalizamos situações, comportamentos e relações que nos causam sofrimento simplesmente porque aprendemos que a vida deveria ser assim. Herdamos expectativas, reproduzimos padrões e ocupamos lugares que nem sempre correspondem àquilo que somos ou desejamos ser. Escrever também é uma maneira de questionar essas estruturas, de olhar para aquilo que foi silenciado e de compreender como determinadas experiências nos constituem. Em “cansei”, particularmente, existe esse movimento de ruptura. O cansaço deixa de ser apenas uma expressão de esgotamento e passa a representar uma tomada de consciência. É o momento em que começamos a perceber que nem tudo aquilo que carregamos nos pertence.
A figura materna aparece em diferentes momentos da obra, especialmente quando você reflete sobre as heranças afetivas e os comportamentos transmitidos entre gerações. Em “Fardo”, você escreve sobre reconhecer, na própria experiência, algo que também atravessava a vida de sua mãe, mas manifesta o desejo de entregar heranças diferentes às próximas gerações. Como a relação com sua mãe e com sua ancestralidade participa do seu movimento de reconstrução?
Acredito que nosso processo de reconstrução passa, inevitavelmente, pelo reconhecimento daquilo que herdamos. E não me refiro apenas às heranças materiais, mas principalmente às afetivas, emocionais e comportamentais. Somos atravessados por histórias que começaram muito antes de nós. A relação com minha mãe e com minha ancestralidade ocupa um lugar importante nesse processo porque, à medida que amadurecemos, começamos a compreender que nossos pais também foram constituídos por suas próprias experiências, dores, ausências e limitações. Existe uma humanidade que precisamos reconhecer naqueles que vieram antes de nós. Em “fardo”, essa percepção aparece quando reconheço, na minha própria experiência, marcas que também atravessaram a vida da minha mãe. Mas esse reconhecimento não significa necessariamente aceitar que essas histórias precisem se repetir. Penso que a reconstrução começa justamente quando conseguimos olhar para essas heranças com consciência, acolhendo aquilo que nos fortalece e questionando aquilo que nos limita. Não se trata de negar nossas origens, tampouco de responsabilizar as gerações anteriores por tudo aquilo que vivemos, mas de compreender que podemos construir outros caminhos. Minha ancestralidade faz parte de quem sou, mas não precisa determinar tudo aquilo que serei. E talvez uma das maiores expressões de amor seja justamente essa: reconhecer o que recebemos e desejar entregar às próximas gerações uma herança mais leve, mais consciente e mais livre. A literatura me permite realizar esse movimento.
Você escreve assim em um dos poemas: “minha pele não é fronteira, / é linguagem”. É uma imagem muito significativa para um livro que parece buscar formas de dizer aquilo que, durante muito tempo, permaneceu silenciado. Que tipo de encontro você espera estabelecer com o leitor?
Penso que, quando um poema chega ao leitor, ele deixa de pertencer exclusivamente a quem o escreveu. Cada pessoa o atravessa com suas próprias memórias, afetos e interpretações. E é justamente essa liberdade que me interessa na literatura. Não espero necessariamente que o leitor compreenda tudo o que senti ou o que me levou a escrever determinado poema. Espero que a palavra provoque alguma experiência, que desperte perguntas, que acolha sentimentos ainda não nomeados ou que simplesmente faça companhia.
O que a escrita representa em sua vida hoje e quais caminhos gostaria de explorar daqui para a frente?
Hoje, a escrita representa uma forma de existir, de compreender o mundo e de investigar a mim mesma. É um espaço de liberdade, descoberta e transformação. Para o futuro, desejo aprofundar minha relação com a literatura, especialmente nas aproximações entre escrita criativa, subjetividade e psicanálise. Também quero explorar novas possibilidades de criação literária e continuar desenvolvendo projetos que aproximem as pessoas dos livros e da escrita. Mais do que publicar, desejo continuar fazendo da palavra um lugar de encontro, reflexão e transformação.

