A cidade de Brumadinho, ainda marcada pelo trauma do rompimento da barragem da Vale em 2019 que tirou 272 vidas, volta ao centro das atenções após a Agência Nacional de Mineração (ANM) elevar o nível de emergência da barragem B1-A, pertencente à Emicon Mineração e Terraplanagem.
O alerta, mesmo sem indícios de rompimento iminente, exige medidas urgentes, cerca de 40 pessoas estão sendo evacuadas preventivamente.
Por que o risco aumentou?
A barragem B1-A, localizada na Serra da Conquista, sub-bacia do Córrego dos Quéias, passou do nível 1 para o nível 2 de emergência. Isso significa que, apesar de não haver anomalias visíveis na estrutura, os dados técnicos existentes sobre sua estabilidade são insuficientes ou desatualizados.
A empresa não entregou a Declaração de Conformidade e Operacionalidade (DCO) referente ao ano de 2025. Além disso, auditorias apontaram falhas nas investigações geotécnicas, comprometendo a análise da integridade da barragem.
O que representa o nível 2 de emergência?
A ANM utiliza uma escala de risco de três níveis:
- Nível 1: Indica anomalias sem necessidade de evacuação.
- Nível 2: Implica evacuação imediata da Zona de Autossalvamento (ZAS).
- Nível 3: Aponta risco iminente de rompimento, com acionamento de alarmes e retirada urgente da população.
A elevação para o nível 2 não significa que o rompimento é certo, mas que o cenário exige máxima precaução. Em caso de colapso, o tempo de resposta em áreas da ZAS é praticamente inexistente, por isso a evacuação deve ocorrer antes de qualquer sinal visível de falha.
Estruturas sob suspeita e total abandono
A B1-A não é a única estrutura preocupante. Outras três barragens da mesma empresa, Quéias, Dique B3 e Dique B4, também estão embargadas. Juntas, elas acumulam 118,3 mil metros cúbicos de rejeitos.
Apesar de esse volume ser muito inferior ao da barragem que se rompeu em 2019, o risco não deve ser minimizado, principalmente diante da ausência de manutenção, documentos e sistemas de segurança.
Uma nota técnica da própria ANM, de outubro de 2024, denunciou o completo abandono das estruturas da Emicon: sem funcionários, monitoramento, nem escritórios em funcionamento. Também faltam dispositivos de alerta e câmeras de vigilância.
O Plano de Ação de Emergência (PAEBM) não vem sendo seguido, e medidas judiciais, como a apreensão dos passaportes dos sócios da empresa, foram tomadas para responsabilização.
Impactos para além dos moradores
Além dos 40 moradores que precisarão deixar suas casas, a situação representa risco a toda a região metropolitana de Belo Horizonte.
A barragem B1-A está a menos de um quilômetro da Rodovia Fernão Dias e a apenas 5,5 quilômetros do reservatório de Rio Manso, da Copasa, que abastece cerca de 1,5 milhão de pessoas. Se rompida, a estrutura poderia comprometer a qualidade da água e causar interrupções no abastecimento.
Desinformação e revolta
Os moradores da comunidade Vale do Ingá, situada dentro da ZAS, foram surpreendidos com a ordem de evacuação.
Muitos, como Roberto do Nascimento Hastenreiter, de 74 anos, afirmam que não foram informados adequadamente sobre os riscos ao se estabelecerem no local. Agora, recebem a notícia de que terão de sair “de mãos abanando”, sem tempo para organizar a mudança ou garantir seus pertences.
A indignação é reforçada pela ausência de diálogo claro entre a população, a empresa responsável e as autoridades. Para muitos, a sensação é de que foram deixados à própria sorte, novamente.






