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Brasil conversa com a China para encontrar soluções para o calor extremo

Por Leticia Florenço
28/07/2025
Em Colunas, Mais Tendências
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Diante de um cenário global cada vez mais impactado pelo aumento das temperaturas e eventos climáticos extremos, o Brasil iniciou conversas com a China em busca de cooperação para desenvolver soluções eficazes de adaptação ao calor.

Inspirado por exemplos internacionais como o de Nagpur, na Índia, que conseguiu reduzir sua temperatura média com base em planejamento urbano e sustentabilidade, o Brasil quer tirar suas cidades da rota das fornalhas urbanas, e tornar essa transição um eixo de inovação conjunta.

O que está em jogo

O calor, embora menos visível que enchentes ou furacões, tem sido classificado por especialistas como um dos fenômenos climáticos mais letais.

É o chamado “assassino silencioso”, impactando diretamente a saúde pública, a produtividade, a economia e a vida cotidiana nas cidades. E as projeções indicam que ondas de calor serão mais frequentes, intensas e prolongadas nas próximas décadas.

Para o Brasil, um país com desafios históricos de urbanização desordenada, saneamento precário e desigualdades socioambientais, adaptar-se ao calor extremo se torna não apenas um imperativo ambiental, mas uma questão de saúde pública, justiça social e sobrevivência econômica.

Parceria com a China

O diálogo entre Brasil e China surge num momento estratégico. A China tem avançado em políticas urbanas sustentáveis, aplicando conceitos como Zonas Climáticas Locais (ZCL) para guiar intervenções específicas em cidades afetadas por ilhas de calor urbanas.

A cidade chinesa de Dalian, por exemplo, aumentou áreas verdes, reformulou códigos de obras e investiu em materiais urbanos com menor absorção térmica. Tais experiências podem servir de base para modelos replicáveis no Brasil.

A parceria bilateral pode envolver:

  • Transferência de tecnologia (como sensores climáticos urbanos e softwares de modelagem de calor)
  • Projetos-piloto em cidades brasileiras
  • Financiamento conjunto para infraestrutura verde e azul
  • Treinamento técnico de gestores urbanos
  • Estímulo à inovação em climatização de baixo carbono

O exemplo de Nagpur

Nagpur, cidade de 2,4 milhões de habitantes na Índia, vive temperaturas de até 45°C. Ainda assim, foi capaz de reduzir a temperatura média local em até 2,7°C com base no uso de ZCL, requalificação de áreas verdes e reestruturação de zonas industriais para permitir circulação de ar.

Cidades brasileiras como São Paulo e Curitiba já iniciaram estudos semelhantes, mas a aplicação em larga escala ainda está em estágio embrionário.

Urgência da adaptação

O Brasil se prepara para sediar a COP30, em Belém, uma cidade que ironicamente enfrenta sérias deficiências em saneamento básico, menos de 3% do esgoto da cidade é tratado.

Com quase metade da população brasileira sem acesso à coleta de esgoto e mais de 16% sem água potável, o país precisa alinhar seus discursos climáticos à realidade de seus territórios.

Além disso, a recente aprovação de um projeto de lei que afrouxa regras ambientais gerou apreensão na comunidade internacional. Para que os compromissos assumidos na COP30 tenham credibilidade, o Brasil precisa demonstrar compromisso interno com soluções de longo prazo.

Ciência, inovação e governança

O Brasil também avalia novas tecnologias como o SRM (Solar Radiation Management), que envolve técnicas para refletir parte da radiação solar de volta ao espaço. Embora ainda em fase de estudo, essas estratégias indicam um novo patamar de atuação climática.

Outro ponto importante é o federalismo climático, como propõe o Instituto Clima e Sociedade, um modelo em que União, estados e municípios atuam de forma coordenada, com repasses de recursos, apoio técnico e descentralização de decisões.

Afinal, como bem destaca o especialista Walter De Simoni, “planejamento nacional não basta se não chegar ao nível municipal”.

A cooperação entre Brasil e China pode marcar o início de uma nova era de urbanismo sustentável no país. Mas para que isso se concretize, é essencial que os exemplos bem-sucedidos deixem de ser exceções e se tornem políticas públicas efetivas.

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Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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