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Brasileiros são os que mais trabalham entre países, mas riqueza continua concentrada

Por Leticia Florenço
01/06/2026
Em Colunas
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Trabalho - Reprodução/iStock

Trabalho - Reprodução/iStock

O Brasil ocupa uma posição que chama atenção em dois rankings distintos da América do Sul: está entre os países com maior carga anual de trabalho e também entre os mais desiguais na distribuição de renda.

A combinação desses indicadores reacende um debate econômico importante sobre produtividade, salários e qualidade de vida da população.

Dados da plataforma Our World in Data mostram que os brasileiros trabalham, em média, 1.994 horas por ano. O número coloca o país na quarta posição entre as maiores jornadas do continente, atrás apenas de Colômbia, Peru e Paraguai.

Apesar do elevado volume de horas dedicadas ao trabalho, o Brasil permanece como o segundo país mais desigual da região, segundo o Índice de Gini, indicador utilizado para medir a concentração de renda.

Trabalho intenso não se traduz necessariamente em maior prosperidade

A análise dos números revela um cenário complexo. Embora milhões de brasileiros passem boa parte do ano trabalhando, isso não significa automaticamente uma distribuição mais equilibrada da riqueza produzida pela economia.

Especialistas explicam que a relação entre horas trabalhadas e desigualdade social não é simples. Em alguns países, jornadas mais longas coexistem com melhores condições econômicas, enquanto em outros o excesso de trabalho está associado a salários baixos e menor produtividade.

Para parte dos economistas, o principal fator não está na quantidade de horas trabalhadas, mas na capacidade da economia de gerar valor durante esse período. Em outras palavras, o que realmente importa é quanto cada hora de trabalho consegue produzir em riqueza e renda.

Baixa produtividade pode explicar parte do problema

Uma das explicações apontadas para o caso brasileiro está na produtividade. Em setores onde a produção por trabalhador é menor, os salários tendem a crescer de forma mais lenta, obrigando muitos profissionais a buscar jornadas maiores ou fontes extras de renda para complementar o orçamento.

Esse cenário é especialmente visível entre trabalhadores de baixa renda, que frequentemente enfrentam dificuldades para manter o padrão de vida apenas com um emprego. Em muitos casos, a necessidade de trabalhar mais horas surge como alternativa para compensar ganhos insuficientes.

Economistas destacam que esse modelo cria um ciclo difícil de romper: salários reduzidos levam ao aumento da carga de trabalho, que por sua vez limita o tempo disponível para qualificação profissional e desenvolvimento de novas competências.

Concentração de renda continua como desafio

O Índice de Gini do Brasil permanece entre os mais altos da América do Sul, demonstrando que uma parcela significativa da riqueza nacional continua concentrada nas mãos de uma pequena parte da população.

A desigualdade afeta diretamente aspectos como acesso à educação, oportunidades de emprego, qualificação profissional e mobilidade social. Segundo especialistas, quando essas barreiras persistem, o crescimento econômico tende a beneficiar grupos específicos, sem alcançar toda a população de maneira equilibrada.

Além dos impactos sociais, a concentração de renda também é vista como um obstáculo ao desenvolvimento econômico de longo prazo, já que reduz o potencial de consumo e limita a formação de capital humano.

Debate sobre jornada de trabalho ganha força no Congresso

A discussão ocorre em um momento em que o Congresso Nacional analisa mudanças nas regras trabalhistas. Entre os temas em debate está a proposta que reduz a jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas, sem redução salarial.

Defensores da medida afirmam que jornadas menores podem melhorar a qualidade de vida, reduzir o desgaste físico e mental dos trabalhadores e até estimular ganhos de produtividade. Já críticos argumentam que a mudança pode elevar custos para empresas e gerar desafios para alguns setores da economia.

Independentemente do resultado da discussão, especialistas concordam que o debate vai além da quantidade de horas trabalhadas. O grande desafio brasileiro continua sendo transformar trabalho em renda, produtividade e oportunidades para um número maior de pessoas.

Enquanto essas transformações não avançam de forma consistente, o país seguirá convivendo com um cenário em que trabalhar muito nem sempre significa ganhar mais ou viver melhor.

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Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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