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Dez dias foram arrancados do calendário e as pessoas acordaram sem saber o que havia acontecido

Por Leticia Florenço
28/05/2026
Em Colunas, Mais Tendências
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Calendário - Foto: (Imagem/Reprodução)

Calendário - Foto: (Imagem/Reprodução)

A forma como o tempo era contado na Roma Antiga esteve longe de ser precisa ou padronizada. O sistema inicial, atribuído ao rei Rômulo, era baseado em ciclos lunares e possuía apenas dez meses. O ano começava em março e terminava em dezembro, totalizando 304 dias.

Os meses restantes não eram oficialmente contabilizados, criando um período de aproximadamente dois meses sem organização formal do calendário. Na prática, o inverno ficava fora da contagem anual, o que dificultava a administração agrícola, religiosa e política.

Reformas tentam organizar o tempo, mas o problema persiste

A primeira grande mudança ocorreu com o rei Numa Pompílio, que adicionou janeiro e fevereiro ao calendário. A partir disso, Roma passou a ter 12 meses. Apesar da ampliação, o sistema ainda apresentava falhas.

O ano romano tinha 355 dias e permanecia baseado nos ciclos da Lua, o que causava um desalinhamento progressivo em relação às estações do ano.

Para compensar as distorções, eram inseridos meses intercalados de forma irregular. A decisão cabia a autoridades religiosas, o que tornava o calendário vulnerável a interferências políticas.

Júlio César impõe reforma e cria calendário juliano

No século 1 a.C., o descompasso do calendário romano se tornou insustentável. Foi nesse contexto que Júlio César determinou uma ampla reforma baseada no modelo solar egípcio.

Em 45 a.C., entrou em vigor o calendário juliano, que estabeleceu o ano com 365 dias e introduziu o ano bissexto a cada quatro anos. A medida trouxe estabilidade inédita e passou a ser adotada em grande parte do mundo ocidental.

Pequeno erro astronômico gera grande distorção ao longo dos séculos

Apesar do avanço, o sistema juliano não era perfeitamente preciso. Ele considerava o ano solar como tendo 365,25 dias, quando o valor real é de aproximadamente 365,242189 dias.

A diferença de cerca de 11 minutos por ano parecia irrelevante, mas ao longo dos séculos provocou um deslocamento progressivo do calendário em relação ao ciclo astronômico. No século 16, o erro acumulado já chegava a cerca de dez dias.

Páscoa fora de data pressiona reforma do calendário

A principal preocupação da Igreja Católica era o impacto desse descompasso na data da Páscoa, que deveria ser celebrada após o equinócio da primavera no hemisfério norte.

Com o calendário atrasado em relação ao ciclo solar, o evento passou a ocorrer fora do período correto. Diante da situação, o Papa Gregório XIII convocou especialistas em astronomia e matemática para corrigir o sistema.

Calendário gregoriano elimina dez dias da contagem oficial

Em 1582, foi implementado o calendário gregoriano, que aperfeiçoou as regras do sistema juliano e reduziu significativamente os erros de cálculo do tempo.

Para corrigir o atraso acumulado, foi adotada uma medida sem precedentes: a remoção direta de dias do calendário. Assim, em países que adotaram a reforma imediatamente, o dia 4 de outubro de 1582 foi seguido pelo dia 15 de outubro de 1582.

Os dez dias intermediários deixaram de existir oficialmente na contagem do tempo.

População reage com confusão e desconfiança

A mudança provocou estranhamento em diversas regiões. Registros históricos indicam confusão em contratos, pagamentos e datas comemorativas.

Parte da população acreditava que havia erro ou manipulação por parte das autoridades. Em um contexto no qual o calendário regulava praticamente toda a vida social e econômica, a alteração abrupta gerou insegurança.

Europa adota reforma de forma desigual

Países de maioria católica, como Portugal, Espanha e Itália, adotaram o novo calendário imediatamente.

Já regiões protestantes resistiram à mudança. O Reino Unido só passou a utilizar o calendário gregoriano em 1752, quando precisou eliminar 11 dias adicionais para corrigir a defasagem acumulada.

Durante séculos, a Europa conviveu com sistemas diferentes de contagem do tempo, o que gerava divergências em datas entre países vizinhos.

Apesar de muito mais preciso, o calendário gregoriano não é perfeito. Ele ainda apresenta uma pequena margem de erro em relação ao ano astronômico real, embora insuficiente para causar grandes impactos no curto prazo.

Especialistas afirmam que seriam necessários milhares de anos para que novas correções significativas fossem necessárias.

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Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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