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Cientistas recriam em laboratório a onda que afunda navios e era considerada mito

Por Leticia Florenço
28/05/2026
Em Colunas, Mais Tendências
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Ondas - Reprodução/Unsplash/Barth Bailey

Ondas - Reprodução/Unsplash/Barth Bailey

Durante muito tempo, histórias sobre ondas gigantes capazes de engolir navios inteiros eram vistas como exageros de marinheiros.

Relatos antigos descreviam paredes de água surgindo do nada em alto-mar, atingindo embarcações enormes com força brutal e desaparecendo logo em seguida. Como quase nunca havia registros confiáveis, cientistas passaram décadas considerando essas narrativas apenas folclore marítimo.

Mas o que parecia mito acabou se transformando em um dos fenômenos mais impressionantes já estudados pelos oceanógrafos modernos: as chamadas “ondas gigantes” ou “rogue waves”, formações oceânicas raras, violentas e extremamente perigosas.

Agora, pesquisadores conseguiram recriar esse fenômeno dentro de um laboratório, em um experimento que ajuda a explicar como essas ondas surgem e por que representam uma ameaça real até para os maiores navios do planeta.

A piscina gigante criada para simular o oceano

O estudo utilizou um enorme tanque circular desenvolvido especificamente para pesquisas marítimas. Ao redor da estrutura, cientistas instalaram dezenas de pás mecânicas controladas por computador, responsáveis por empurrar a água em direções calculadas.

O objetivo era reproduzir as condições caóticas do oceano aberto. Quando todas as ondas artificiais se deslocavam para um mesmo ponto central, ocorria um fenômeno conhecido como “focalização de ondas”. A energia acumulada convergia violentamente e criava uma erupção líquida vertical extremamente poderosa.

O resultado impressionou até os próprios pesquisadores: uma onda gigantesca surgiu no centro do tanque, imitando o comportamento das ondas monstruosas registradas no mar.

Segundo os cientistas, o processo funciona quase como uma explosão invertida. Em vez de um objeto cair na água, a própria água colapsa sobre si mesma, concentrando energia suficiente para gerar uma parede líquida repentina.

Ondas que podem ultrapassar 20 metros de altura

Embora o experimento tenha acontecido em escala controlada, os pesquisadores explicam que o fenômeno reproduz condições reais observadas no oceano. Em mar aberto, algumas dessas ondas já chegaram a ultrapassar 20 metros de altura, o equivalente a um prédio de seis ou sete andares.

Ao contrário das ondas comuns geradas por tempestades, as ondas gigantes podem surgir praticamente do nada. Elas aparecem de maneira abrupta, concentram enorme quantidade de energia e desaparecem rapidamente depois do impacto.

Isso explica por que embarcações modernas, mesmo equipadas com tecnologia avançada, ainda enfrentam dificuldades para detectar esse tipo de ameaça.

A onda que mudou a visão da ciência em 1995

Por séculos, faltavam evidências concretas da existência dessas ondas. Isso mudou oficialmente em 1995, quando uma plataforma de petróleo no Mar do Norte registrou uma onda colossal através de sensores a laser. O episódio ficou conhecido como a “onda Draupner”.

A medição confirmou que uma parede de água gigantesca havia surgido de forma isolada, contrariando modelos oceânicos tradicionais da época. A partir daquele momento, a comunidade científica deixou de tratar o fenômeno como superstição marítima.

As ondas gigantes passaram então a ser estudadas seriamente por engenheiros, físicos e oceanógrafos do mundo inteiro.

Como o experimento pode ajudar a salvar vidas

Muito além do espetáculo visual, a recriação das ondas em laboratório possui aplicações extremamente importantes para a engenharia naval.

Os pesquisadores utilizam modelos reduzidos de navios, plataformas de petróleo e turbinas eólicas para observar como essas estruturas reagem aos impactos extremos.

Com isso, engenheiros conseguem desenvolver projetos mais resistentes e seguros para enfrentar condições oceânicas severas.

A tecnologia também pode ajudar na criação de sistemas avançados de previsão marítima, reduzindo riscos para cargueiros, navios de passageiros e plataformas instaladas em alto-mar.

Em outras palavras, entender essas ondas significa aumentar a segurança de milhares de trabalhadores e viajantes que cruzam os oceanos diariamente.

O oceano ainda guarda mistérios

Apesar dos avanços tecnológicos das últimas décadas, os oceanos continuam sendo uma das áreas menos compreendidas do planeta.

As ondas gigantes representam exatamente isso: um fenômeno raro, poderoso e difícil de prever, capaz de surgir sem aviso no meio do mar.

A diferença é que, agora, a ciência finalmente conseguiu provar que as histórias contadas por marinheiros antigos estavam certas o tempo todo. O que antes parecia apenas lenda virou objeto de pesquisa avançada e uma das demonstrações mais impressionantes da força imprevisível da natureza.

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Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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