O avanço da inteligência artificial (IA) segue alimentando um dos debates mais intensos do setor de tecnologia: ela vai substituir em massa os trabalhadores ou apenas transformar funções existentes?
Para o vice-presidente sênior da Google, James Manyika, o discurso dominante no Vale do Silício exagera os riscos de uma crise de desemprego no curto prazo. A declaração foi dada em entrevista ao programa Platformer, repercutida pela Business Insider.
Crítica às previsões
Manyika rejeita diretamente as projeções mais extremas que circularam nos últimos anos, especialmente aquelas que sugeriam que a IA eliminaria rapidamente grande parte dos empregos.
Segundo ele, algumas previsões chegaram a afirmar que até 50% dos postos de trabalho desapareceriam em poucos anos, algo que, na visão do executivo, não se confirmou na prática.
Ele também destacou que está disposto a “apostar contra” esse tipo de cenário apocalíptico de curto prazo, reforçando que a evolução real do mercado de trabalho é mais gradual e complexa.
IA não elimina funções, ela redefine o trabalho
Para Manyika, o impacto mais realista da IA não é a extinção de profissões, mas a transformação profunda das atividades desempenhadas dentro delas.
Ele argumenta que o trabalho muda de forma contínua ao longo do tempo, mesmo sem revoluções tecnológicas tão disruptivas quanto a IA.
Como exemplo, cita ocupações tradicionais que evoluíram ao longo das décadas, como caixas de banco e radiologistas, cujas funções atuais são muito diferentes das de gerações anteriores.
Essa visão reforça a ideia de que a tecnologia tende a automatizar tarefas específicas, e não profissões inteiras.
Base acadêmica e visão de longo prazo
Manyika possui doutorado em IA e robótica pela Universidade de Oxford e já participou de estudos sobre automação no mercado de trabalho.
Ele também foi um dos autores de relatórios da consultoria McKinsey & Company, que desde 2017 apontam para efeitos mistos da automação: ao mesmo tempo em que algumas funções desaparecem, outras surgem ou são ampliadas.
Essa perspectiva sustenta a visão de que o impacto da IA é mais de reorganização do trabalho do que de eliminação total de empregos.
Demissões no setor de tecnologia seguem em alta
Apesar do discurso mais otimista, o setor de tecnologia continua registrando cortes significativos de pessoal.
De acordo com dados da consultoria Challenger, Gray & Christmas, empresas de tecnologia anunciaram mais de 85 mil demissões até abril deste ano, representando um aumento de 33% em relação ao mesmo período anterior.
Pressão sobre infraestrutura e custos da IA
Outro ponto levantado por Manyika envolve a infraestrutura necessária para sustentar o avanço da IA.
Segundo ele, as grandes empresas de tecnologia precisam demonstrar que o crescimento desse setor não vai gerar impactos negativos diretos para a sociedade, como aumento no custo da energia elétrica em comunidades locais.
Esse aspecto coloca o debate da IA não apenas no campo do emprego, mas também no da sustentabilidade econômica e energética.
Desconfiança pública e pesquisas recentes
A percepção pública sobre a IA também tem se tornado um desafio para as big techs. Manyika citou levantamentos de institutos como YouGov e Gallup, que indicam níveis crescentes de desconfiança da população em relação ao impacto da tecnologia.
Essas pesquisas mostram que, embora a IA avance rapidamente, parte da sociedade ainda vê o processo com preocupação, especialmente no que diz respeito a emprego e segurança econômica.





