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Pagamento de sangue é revelado em antigos documentos encontrados

Por Leticia Florenço
15/05/2026
Em Colunas, Mais Tendências
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Tábua assíria menciona pagamento de sangue - Crédito: Divulgação

Tábua assíria menciona pagamento de sangue - Crédito: Divulgação

A descoberta de tábuas cuneiformes milenares trouxe uma nova compreensão sobre como funcionavam os sistemas de justiça no mundo antigo.

Entre registros comerciais e correspondências pessoais, pesquisadores identificaram a existência de um mecanismo conhecido como “dinheiro de sangue”, utilizado há cerca de 4 mil anos entre mercadores assírios.

Essa prática, longe de ser apenas simbólica, fazia parte de um complexo sistema jurídico e diplomático que regulava crimes graves, especialmente homicídios ocorridos em rotas comerciais.

O funcionamento do dāmum na sociedade assíria

Na cultura assíria antiga, o chamado dāmum representava uma forma de compensação financeira paga em casos de assassinato. Em vez de punições exclusivamente físicas ou vingativas, o sistema buscava restaurar o equilíbrio social por meio de pagamentos à família da vítima.

Essa compensação variava de acordo com o contexto do crime e com a posição social do indivíduo envolvido, refletindo uma estrutura jurídica altamente adaptável para o período.

As descobertas arqueológicas em Kültepe

Os dados detalhadas sobre essa prática foram encontradas em duas tábuas cuneiformes analisadas por pesquisadores da Universidade de Ancara e da Universidade de Gazi, publicadas na revista Adalya.

Esses documentos fazem parte de um conjunto de cerca de 23 mil textos recuperados na antiga cidade de Kültepe, também conhecida historicamente como Kaneš, um dos principais centros comerciais das colônias assírias na região.

Essas tábuas revelam detalhes inéditos sobre como o sistema de compensação funcionava na prática, incluindo cartas, registros de viagem e negociações relacionadas a conflitos envolvendo mercadores.

Comércio, risco e proteção nas rotas antigas

Os mercadores assírios enfrentavam longas viagens por territórios diversos, transportando bens valiosos como prata, estanho e tecidos. Nesse contexto, a segurança era um fator essencial para a sobrevivência das redes comerciais.

A proteção desses comerciantes era responsabilidade dos governantes locais das regiões por onde as caravanas passavam. Quando ocorria um assassinato, esses líderes tinham o dever de investigar o crime, identificar o culpado e garantir que a compensação fosse paga.

A variação do valor da compensação

Os registros indicam que não havia um valor fixo para o chamado dinheiro de sangue. O montante da compensação dependia de múltiplos fatores, incluindo o status social da vítima, sua origem e até as circunstâncias políticas envolvidas no crime.

Os pagamentos eram realizados em diferentes formas de riqueza, como prata, cobre, estanho e até tecidos valiosos. Essa flexibilidade demonstra que o sistema não era rígido, mas sim adaptado às condições econômicas e sociais de cada situação.

O papel diplomático do sistema de compensação

Em muitos casos, o dāmum ia além da esfera jurídica e se tornava um instrumento diplomático entre cidades e reinos. Um exemplo disso aparece em tratados entre Kültepe e Assur, nos quais eram estabelecidas regras claras para casos de assassinato de mercadores.

Quando um assírio era morto sob jurisdição estrangeira, a autoridade local era obrigada a pagar uma quantia determinada e entregar o responsável pelo crime para julgamento. Esse tipo de acordo ajudava a manter a estabilidade das relações comerciais e evitar conflitos armados.

Consequências da recusa em pagar o “dinheiro de sangue”

A recusa em cumprir essas obrigações podia gerar consequências graves. Há registros de que, em certos casos, a suspensão de relações comerciais era utilizada como forma de pressão política.

Um exemplo citado pelos pesquisadores envolve o assassinato de um comerciante assírio, no qual a negativa da autoridade local em pagar a compensação resultou no rompimento de acordos comerciais. Isso mostra como o sistema funcionava também como mecanismo de controle e equilíbrio entre diferentes poderes.

A descoberta dessas tábuas cuneiformes melhora a compreensão sobre como sociedades antigas lidavam com crimes e conflitos. O chamado “dinheiro de sangue” revela uma abordagem pragmática da justiça, na qual a reparação financeira desempenhava um papel central na manutenção da ordem social e econômica.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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