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Material considerado quase mágico confundiu cientistas durante séculos

Por Leticia Florenço
16/05/2026
Em Colunas, Mais Tendências
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Imagem ilustrativa. Foto: Divulgação

Imagem ilustrativa. Foto: Divulgação

Durante mais de quatro séculos, um tipo de rocha encontrada na região de Bolonha, na Itália, foi considerada um dos maiores mistérios naturais já registrados.

Sua aparência discreta escondia um comportamento que, para os padrões da época, parecia desafiar completamente as leis conhecidas da natureza: ela “absorvia” a luz do Sol durante o dia e brilhava sozinha no escuro.

Esse efeito incomum levou alquimistas e estudiosos a acreditarem que estavam diante de algo extraordinário, talvez até sobrenatural.

A descoberta na Itália do século XVII

A história começa em 1603, quando Vincenzo Casciarolo, um sapateiro que também se dedicava à alquimia como amador, encontrou uma pedra diferente no Monte Paterno, próximo a Bolonha. Intrigado, ele levou o material para seu forno e o submeteu ao calor intenso do carvão.

Após o aquecimento, Casciarolo observou algo inesperado. Quando a pedra era exposta à luz solar e depois colocada no escuro, ela emitia um brilho suave, como se tivesse armazenado a luz. Esse comportamento incomum rapidamente se espalhou entre estudiosos da época e deu início a uma série de especulações.

Alquimia, mistério e a ideia da pedra filosofal

No contexto do século XVII, a descoberta foi interpretada de forma totalmente diferente do que se entende hoje.

Muitos acreditavam que a rocha poderia estar relacionada à lendária Pedra Filosofal, um material mítico que, segundo a alquimia, seria capaz de transformar metais comuns em ouro e até conceder a imortalidade.

Outros estudiosos sugeriam explicações ainda mais misteriosas, como a existência de uma energia solar aprisionada dentro da pedra. Sem ferramentas científicas adequadas, o fenômeno permaneceu envolto em teorias místicas por gerações, reforçando o fascínio em torno da chamada pedra de Bolonha.

A explicação da ciência moderna

Séculos depois, a geologia conseguiu finalmente explicar o enigma. O material é, na verdade, uma forma de barita, um mineral composto principalmente por bário, enxofre e oxigênio.

Essa substância possui a capacidade de emitir luz após ser estimulada por radiação, especialmente a luz ultravioleta. O fenômeno não envolve armazenamento de luz, mas sim um processo físico-químico no qual elétrons absorvem energia, mudam de estado e depois liberam essa energia na forma de luz visível.

Como o brilho realmente acontece

Quando a luz ultravioleta atinge o mineral, ela fornece energia suficiente para excitar os elétrons presentes em sua estrutura cristalina. Esses elétrons saltam para níveis de energia mais elevados e, ao retornarem ao estado original, liberam o excesso de energia em forma de luminosidade.

Esse efeito pode durar minutos ou até horas após a exposição à luz, criando a ilusão de que a pedra “brilha no escuro”. Na realidade, trata-se de um processo natural conhecido como fosforescência, amplamente estudado na física e na química moderna.

O que antes foi interpretado como magia hoje é uma ferramenta importante para a ciência. A fluorescência e a fosforescência de minerais como a barita são usadas em diversas áreas, incluindo a identificação de materiais geológicos, a distinção entre substâncias naturais e sintéticas e até a exploração de recursos subterrâneos.

Além disso, esses fenômenos ajudam pesquisadores a estudar a composição de corpos celestes, permitindo análises indiretas de estrelas e planetas distantes por meio da espectroscopia.

Mesmo hoje, o brilho dessa rocha continua a despertar fascínio, não mais como um mistério inexplicável, mas como um lembrete de que a ciência muitas vezes transforma o extraordinário em compreensão.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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