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Nova modalidade de cripto ligada ao real gera questionamento sobre lucros

Por Leticia Florenço
29/04/2026
Em Colunas, Mais Tendências
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Criptomoeda - Reprodução/iStock

Criptomoeda - Reprodução/iStock

As chamadas “criptos de real”, moedas digitais desenvolvidas para manter paridade com a moeda brasileira e respaldadas por títulos públicos, começam a transformar o debate financeiro nacional.

O que inicialmente parecia apenas uma inovação tecnológica voltada para pagamentos rápidos e seguros passou a desencadear questionamentos profundos sobre rentabilidade, concorrência bancária e regulamentação.

Esses ativos, conhecidos como stablecoins lastreadas em real, unem elementos que antes pertenciam a universos distintos: a instantaneidade das transferências digitais, a segurança da tecnologia blockchain e a possibilidade de geração de rendimentos por meio dos juros pagos pelos títulos públicos que garantem sua existência.

No centro da discussão está uma pergunta que mobiliza bancos, fintechs e reguladores: quem deve ficar com os lucros produzidos pelos títulos públicos usados como reserva dessas moedas digitais?

Modelo pode alterar lógica tradicional do sistema financeiro

Na prática, empresas emissoras dessas moedas digitais mantêm reservas financeiras aplicadas principalmente em papéis públicos, gerando rendimentos contínuos. Com a taxa Selic em níveis elevados, esse retorno pode ser altamente significativo.

Caso parte desses ganhos seja repassada aos usuários, essas criptos passam a competir diretamente com produtos tradicionais como:

  • CDBs com liquidez diária
  • Tesouro Direto
  • Contas remuneradas
  • Fundos de renda fixa

Essa possibilidade gera apreensão entre instituições financeiras tradicionais, já que os depósitos bancários representam uma das principais fontes de financiamento do setor.

Se usuários puderem manter recursos em stablecoins que oferecem liquidez, praticidade e remuneração, o modelo bancário convencional pode sofrer pressão considerável.

Experiência internacional já mostra impacto no mercado

Nos Estados Unidos, o avanço desse tipo de ativo já alterou significativamente o mercado financeiro. Gigantes como Tether e Circle, responsáveis pelas principais stablecoins de dólar, tornaram-se grandes compradoras da dívida pública americana.

Juntas, essas empresas controlam centenas de bilhões de dólares em títulos do Tesouro dos EUA, acumulando receitas financeiras bilionárias com os juros dessas aplicações.

Esse cenário colocou o tema no centro de discussões legislativas internacionais, especialmente sobre:

  • Competição com bancos tradicionais
  • Segurança sistêmica
  • Regulação de pagamentos digitais
  • Definição jurídica das stablecoins

O debate norte-americano serve como alerta para o Brasil, onde juros mais altos tornam esse modelo potencialmente ainda mais lucrativo.

Juros elevados no Brasil tornam mercado ainda mais sensível

Com uma taxa Selic significativamente superior à observada na maioria das economias desenvolvidas, o Brasil se tornou um ambiente especialmente atrativo para empresas emissoras de stablecoins atreladas ao real.

Esse cenário amplia de forma considerável o potencial de rentabilidade sobre os títulos públicos utilizados como lastro dessas moedas digitais, tornando o mercado brasileiro ainda mais sensível e estratégico dentro dessa nova disputa financeira.

Na prática, os elevados juros nacionais permitem que os ativos de reserva dessas criptomoedas gerem retornos mais robustos do que produtos semelhantes em mercados internacionais, aumentando o valor econômico envolvido para emissores, investidores e instituições financeiras tradicionais.

Diante desse potencial, o setor se divide sobre a melhor forma de utilizar os ganhos produzidos por esse lastro. Parte das empresas defende que os rendimentos obtidos devem ser destinados exclusivamente à manutenção da própria estrutura da operação, cobrindo despesas como infraestrutura tecnológica, custos operacionais, segurança das transações e exigências de compliance regulatório.

Sob essa perspectiva, a stablecoin mantém sua função principal como instrumento de pagamento e transferência de valor, sem se transformar diretamente em um produto de investimento.

Por outro lado, algumas emissoras apostam em modelos mais agressivos e competitivos, nos quais os rendimentos gerados pelos títulos públicos são repassados, de forma integral ou parcial, aos usuários.

Essa estratégia torna a moeda digital mais atrativa, aproximando-a de contas remuneradas e oferecendo ao investidor uma combinação de liquidez, praticidade tecnológica e possibilidade de retorno financeiro.

Mercado se divide entre inovação e risco regulatório

A ausência de consenso revela uma divisão estratégica no setor. De um lado, defensores da infraestrutura pura argumentam que misturar pagamento com remuneração pode gerar riscos regulatórios e descaracterizar o propósito original das stablecoins.

Do outro, empresas mais agressivas enxergam oportunidade de democratizar investimentos, ampliar competição e reduzir o domínio bancário tradicional.

Entre essas posições, surgem formatos híbridos, que utilizam os rendimentos para programas de recompensas, incentivos ou benefícios indiretos, evitando a classificação como investimento formal.

Banco Central e Congresso ganham papel decisivo

Com o crescimento desse mercado, especialistas apontam que o avanço sustentável dependerá de segurança jurídica. O Projeto de Lei 4.308/2024 surge como uma das principais iniciativas para definir:

  • Natureza jurídica das stablecoins
  • Possibilidade de distribuição de rendimentos
  • Responsabilidades das emissoras
  • Supervisão regulatória

A expectativa é que o Banco Central desempenhe papel central na regulamentação técnica, garantindo transparência e estabilidade ao setor.

Disputa vai além da tecnologia e envolve controle econômico

Mais do que uma simples inovação digital, as criptos de real representam uma mudança estrutural sobre quem captura os rendimentos gerados pelo dinheiro em circulação.

A discussão envolve interesses de:

  • Bancos tradicionais
  • Fintechs
  • Empresas de blockchain
  • Investidores
  • Governo federal

No limite, trata-se de uma redefinição sobre o papel das instituições financeiras na intermediação do capital.

Futuro pode transformar relação dos brasileiros com dinheiro digital

Se regulamentadas de forma favorável, essas moedas podem inaugurar uma nova fase no sistema financeiro brasileiro, oferecendo uma combinação inédita de:

  • Liquidez imediata
  • Segurança tecnológica
  • Rentabilidade
  • Menor dependência bancária

Por outro lado, sem regras claras, o setor pode enfrentar insegurança jurídica, barreiras regulatórias e resistência institucional.

O futuro desse mercado dependerá da capacidade de equilibrar inovação, competitividade e segurança regulatória.

Enquanto empresas buscam ampliar espaço e oferecer alternativas mais vantajosas aos usuários, bancos tradicionais observam com cautela o surgimento de concorrentes capazes de alterar estruturas históricas de captação e rentabilidade.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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