Uma descoberta liderada por cientistas brasileiros está mudando o entendimento sobre a sobrevivência das chamadas “aves do terror”, grupo de predadores que dominou a América do Sul por milhões de anos.
A identificação de uma nova espécie, batizada de Eschatornis aterradora, indica que esses animais viveram até cerca de 25 mil anos atrás, período considerado recente em termos geológicos.
O estudo foi publicado no periódico científico Papers in Palaeontology e reúne pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e do Centro de Pesquisas em Ciências da Terra, na Argentina.
Descoberta a partir de um único osso
A nova espécie foi descrita com base em um fragmento de osso encontrado na caverna Toca dos Ossos, localizada no município de Ourolândia, na Chapada Diamantina (BA). O material analisado corresponde a parte do tibiotarso, estrutura óssea presente nas pernas das aves.
Inicialmente, o fóssil havia sido classificado, em 2008, como pertencente a um grupo de aves necrófagas, como urubus. No entanto, uma reavaliação detalhada revelou características anatômicas compatíveis com os forusracídeos, conhecidos popularmente como “aves do terror”.
Predadores dominantes da pré-história
Os forusracídeos foram aves carnívoras não voadoras que ocuparam o topo da cadeia alimentar na América do Sul por milhões de anos, durante o período em que o continente permaneceu isolado.
Com bicos curvos e fortes e grande capacidade de ataque, algumas espécies podiam atingir até três metros de altura e pesar cerca de 350 quilos.
A Eschatornis aterradora, porém, apresenta dimensões mais modestas. Segundo estimativas dos pesquisadores, o animal media entre 70 e 90 centímetros e pesava até 6 quilos, tamanho semelhante ao das atuais seriemas, aves consideradas suas parentes vivas mais próximas.
Sobrevivência tardia chama atenção
A principal relevância da descoberta está na datação do fóssil. Até então, acreditava-se que as aves do terror haviam desaparecido bem antes do final do Pleistoceno. O novo registro indica que ao menos algumas linhagens menores sobreviveram até períodos relativamente recentes.
De acordo com os autores do estudo, essa longevidade pode estar associada à capacidade dessas espécies menores de ocupar nichos ecológicos diferentes, evitando a competição direta com grandes predadores.
Mudanças ambientais e competição podem explicar extinção
A extinção das aves do terror ainda é tema de debate científico. Uma das hipóteses mais aceitas envolve o chamado Grande Intercâmbio Faunístico, ocorrido há cerca de 3 milhões de anos, quando a América do Sul se conectou à América do Norte.
Com isso, novos predadores, como grandes felinos e ursos, passaram a habitar o continente sul-americano, aumentando a competição por alimento. Além disso, mudanças climáticas e transformações ambientais ao longo do tempo também podem ter contribuído para o desaparecimento do grupo.
Nome faz referência ao fim de uma era
O nome científico da nova espécie carrega um significado simbólico. “Eschatornis” deriva do grego e pode ser traduzido como “última ave”, em referência à possível posição dessa espécie entre as últimas representantes do grupo. Já o termo “aterradora” remete à reputação dos forusracídeos como predadores temidos.
Para os pesquisadores, a descoberta reforça o potencial paleontológico do Brasil e amplia o conhecimento sobre a biodiversidade pré-histórica do continente.
Mesmo com base em um único fragmento ósseo, o estudo demonstra como novas análises podem redefinir interpretações anteriores e revelar espécies até então desconhecidas.
O achado também evidencia que a história evolutiva das aves do terror é mais complexa do que se imaginava, envolvendo diferentes tamanhos, comportamentos e estratégias de sobrevivência ao longo de milhões de anos.





