Cerca de metade dos cânceres humanos apresenta níveis elevados da proteína Bcl-2, condição associada à maior resistência à quimioterapia, à radioterapia e a terapias-alvo. Esse fator ajuda a explicar por que muitos tumores sobrevivem mesmo após intervenções agressivas.
A Bcl-2 faz parte da família de proteínas que regula o caminho intrínseco da apoptose, processo de morte celular programada essencial para eliminar células danificadas e manter o equilíbrio do organismo.
Quando esse mecanismo falha, células defeituosas se multiplicam de forma descontrolada, favorecendo o desenvolvimento de tumores.
Motivo pro câncer vencer
Estudo publicado na revista científica ACS Chemical Biology detalhou como a Bcl-2 bloqueia a ação da proteína Bax, responsável por iniciar a apoptose ao formar poros na membrana mitocondrial. Sem esses poros, a cascata bioquímica que levaria à morte celular não é ativada.
Mecanismo de bloqueio da apoptose
- A Bcl-2 bloqueia a apoptose em duas etapas.
- Primeiro, liga-se a moléculas individuais de Bax, formando pares.
- Depois, esses pares induzem a formação de oligômeros.
- Essa reorganização impede que a Bax atue na membrana mitocondrial e forme os poros que levariam à morte celular.
- A Bcl-2 neutraliza múltiplas moléculas de Bax simultaneamente, mantendo alta eficiência mesmo com aumento da proteína induzido por tratamentos.
Metodologia do estudo
- Uso de refletometria de nêutrons e espectroscopia ATR-FTIR.
- Análise do comportamento de proteínas em membranas que simulam o ambiente celular.
Papel da cardiolipina
- Avaliação do lipídio cardiolipina, que normalmente favorece a ação da Bax.
- Mesmo em ambientes ricos nessa substância, a Bcl-2 impede a formação dos poros responsáveis pela apoptose.
Como contornar?
A superexpressão de Bcl-2 está associada à baixa resposta terapêutica em vários tipos de câncer, incluindo doenças hematológicas como a macroglobulinemia de Waldenström.
Inibidores dessa proteína já são usados na prática clínica, especialmente em leucemias, como o venetoclax, que induz apoptose em células dependentes de Bcl-2.
No entanto, a resposta varia entre pacientes e há limitações em tumores sólidos. Pesquisas indicam que a resistência também envolve outras proteínas antiapoptóticas, como Bcl-xL e Mcl-1, o que tem impulsionado estratégias combinadas e o desenvolvimento de BH3 miméticos para restaurar o equilíbrio da apoptose.






