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Moeda de 440 anos mostra a localização exata de colônia espanhola marcada por tragédia

Por Leticia Florenço
31/03/2026
Em Colunas, Mais Tendências
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A descoberta de uma antiga moeda de prata com cerca de 440 anos trouxe à tona um dos capítulos mais dramáticos da colonização europeia na América do Sul.

Encontrada na região do Estreito de Magalhães, a peça permitiu identificar com precisão o local da antiga colônia espanhola Rey Don Felipe, posteriormente conhecida como Puerto del Hambre.

A peça encontrada é uma moeda de oito reais cunhada durante o reinado de Filipe II, um período marcado pela expansão marítima espanhola. O objeto foi localizado sob os vestígios de uma antiga estrutura religiosa, um detalhe que não é coincidência.

Na época, era comum que colonizadores enterrassem moedas nas fundações de igrejas como símbolo de proteção divina e legitimidade política. Esse ritual reforça a conexão direta entre o achado arqueológico e os registros históricos.

Além disso, a descoberta foi conduzida por pesquisadores da Universidade Bernardo O’Higgins, com apoio de centros especializados, utilizando tecnologias modernas que evitaram escavações invasivas e preservaram o sítio.

Conexão entre documentos e realidade

O navegador espanhol Pedro Sarmiento de Gamboa havia descrito detalhadamente a fundação da colônia em 1584. Durante séculos, historiadores confiaram nesses relatos, mas sem evidências físicas conclusivas sobre a localização exata.

Agora, com a moeda encontrada exatamente onde as fontes indicavam, foi possível validar essas narrativas. Mais do que isso, os pesquisadores conseguem reconstruir o traçado urbano da colônia, incluindo sua organização espacial, edifícios e pontos centrais.

Um símbolo do primeiro mundo globalizado

A moeda de oito reais não era um objeto comum. Ela é considerada por muitos historiadores como a primeira moeda de circulação global, sendo aceita em regiões tão distantes quanto a Ásia e as Américas.

Sua presença no extremo sul do continente evidencia o alcance do império espanhol e sua tentativa de consolidar rotas estratégicas no Estreito de Magalhães, fundamental para a navegação entre os oceanos Atlântico e Pacífico.

Os símbolos gravados, como a cruz de Jerusalém e o brasão real, reforçavam a autoridade da Coroa em territórios recém-ocupados.

O fracasso da colônia e a tragédia humana

Apesar da ambição estratégica, a colônia Rey Don Felipe teve um destino trágico. Isolados, enfrentando frio extremo, escassez de alimentos e dificuldades logísticas, os colonos não resistiram.

Poucos anos após sua fundação, o explorador inglês Thomas Cavendish passou pela região e encontrou apenas restos humanos e sinais de abandono. Foi ele quem deu ao local o nome de Puerto del Hambre, uma referência direta à fome que dizimou os habitantes.

Tecnologia moderna revelando o passado

Outro ponto fascinante da descoberta foi o uso de tecnologia avançada para localizar o objeto. Sensores detectaram um sinal incomum no solo, permitindo uma escavação precisa e mínima, preservando o contexto arqueológico.

Esse tipo de abordagem representa uma nova era na arqueologia, em que ciência e história se unem para reconstruir o passado sem destruí-lo.

Memória, ambição e limites do império

A pequena moeda de prata, aparentemente simples, tornou-se uma chave para compreender um dos maiores fracassos da expansão colonial espanhola. Ela simboliza não apenas riqueza e poder, mas também os limites da ambição humana diante da natureza extrema.

Hoje, o achado permite recontar a história com mais precisão, trazendo à luz a realidade vivida por aqueles que tentaram ocupar uma das regiões mais hostis do mundo.

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Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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