Em muitos lares brasileiros, a infância das meninas é atravessada por responsabilidades que vão além das brincadeiras e dos estudos. Enquanto meninos costumam ter mais tempo livre, meninas frequentemente passam a ajudar nas tarefas domésticas ou a cuidar de irmãos mais novos ainda muito cedo.
Essa realidade, comum em diversas famílias, foi investigada por pesquisadores que analisaram como o trabalho doméstico e de cuidado é distribuído ao longo da vida.
A pesquisadora Jordana Cristina de Jesus, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, conhece essa situação não apenas como objeto de pesquisa, mas também por experiência própria.
Filha de uma mãe solo e irmã de quatro crianças, ela começou a assumir responsabilidades dentro de casa ainda na infância, cuidando da irmã mais nova enquanto a mãe trabalhava. Anos depois, essa vivência se transformaria em tema central de seus estudos acadêmicos sobre gênero e economia do cuidado.
O peso do chamado “trabalho invisível”
As tarefas realizadas dentro de casa, como cozinhar, limpar, organizar a rotina familiar ou cuidar de crianças e idosos, são classificadas por pesquisadores como trabalho invisível.
Isso porque, embora sejam fundamentais para o funcionamento da sociedade, essas atividades não costumam ser reconhecidas como trabalho formal nem entram nas estatísticas tradicionais da economia.
Esse tipo de atividade exige planejamento, esforço físico e dedicação diária. Mesmo assim, costuma ser tratado como uma obrigação natural de determinados membros da família, principalmente das mulheres.
Em muitos casos, esse aprendizado começa ainda na infância, quando meninas passam a ser incentivadas a ajudar em tarefas domésticas com mais frequência que os meninos.
Meninas trabalham tanto quanto adultos dentro de casa
O estudo revelou um dado que chama atenção: meninas entre 10 e 14 anos realizam uma parcela significativa do trabalho doméstico e de cuidado no Brasil. Em termos proporcionais, elas chegam a dedicar tanto tempo a essas tarefas quanto homens adultos em diferentes fases da vida.
Segundo os pesquisadores, esse grupo etário feminino responde por cerca de 2,4% de todo o trabalho de cuidado realizado no país. Esse percentual corresponde ao nível máximo de dedicação masculina ao trabalho doméstico, registrado apenas entre homens de 30 a 34 anos.
A comparação evidencia como a divisão desigual das tarefas começa muito cedo.
A sobrecarga feminina ao longo da vida
Ao longo dos anos, a carga de trabalho doméstico tende a aumentar ainda mais para as mulheres. O estudo indica que o pico dessa dedicação ocorre no início da casa dos 30 anos, fase em que muitas mulheres estão simultaneamente consolidando suas carreiras e construindo suas famílias.
Nesse período, mulheres chegam a realizar quase quatro vezes mais trabalho doméstico e de cuidado do que homens da mesma idade. Isso significa que, além da jornada profissional, muitas delas acumulam uma segunda jornada dentro de casa, responsável pela organização e manutenção da vida familiar.
Educação e cultura reforçam papéis de gênero
A pesquisa aponta que essa desigualdade não surge apenas dentro das famílias, mas é reforçada por fatores culturais presentes em diferentes espaços sociais. Desde cedo, meninas podem ser incentivadas a desenvolver habilidades relacionadas ao cuidado, enquanto meninos recebem estímulos voltados para outras atividades.
Essa construção cultural faz com que o cuidado seja frequentemente visto como algo “natural” para mulheres, como se fosse um traço instintivo ou biológico. Ao mesmo tempo, ainda persiste a ideia de que os homens devem se dedicar prioritariamente ao papel de provedores financeiros da família.
Desigualdades ainda maiores para mulheres negras
O levantamento também mostra que o trabalho doméstico não remunerado afeta grupos sociais de forma diferente. Mulheres negras, por exemplo, concentram uma parcela ainda maior dessas tarefas.
Mesmo representando cerca de um quarto da população brasileira, elas são responsáveis por quase metade do trabalho de cuidado realizado no país. Em muitos casos, isso significa dedicar longas horas semanais a atividades domésticas, além de manter outras jornadas de trabalho fora de casa.
Escolaridade reduz diferenças, mas não elimina o problema
Os pesquisadores observaram que a educação pode ajudar a diminuir parte dessa desigualdade. Mulheres com maior nível de escolaridade tendem a ter mais oportunidades profissionais e maior renda, o que permite contratar serviços ou dividir algumas tarefas.
Apesar disso, mesmo entre pessoas com ensino superior, as mulheres continuam dedicando mais tempo ao trabalho doméstico do que os homens. Ou seja, a educação contribui para reduzir a disparidade, mas não é suficiente para eliminá-la completamente.
Embora muitas vezes seja tratado como uma obrigação familiar, o trabalho doméstico possui grande valor econômico. Estudos da Fundação Getulio Vargas indicam que, se fosse remunerado, o trabalho de cuidado representaria pelo menos 8,5% de toda a economia brasileira.
Esse dado ajuda a demonstrar que grande parte do funcionamento da sociedade depende de atividades que ocorrem dentro dos lares e que, na maioria das vezes, são realizadas por mulheres e meninas sem remuneração.
Um desafio estrutural para a igualdade
Para os pesquisadores, os dados revelam que a desigualdade na divisão das tarefas domésticas é um fenômeno estrutural. Ela começa na infância, se intensifica na vida adulta e influencia diretamente as oportunidades educacionais e profissionais das mulheres.
Reduzir essa diferença exige mudanças culturais, maior valorização do trabalho de cuidado e políticas públicas que incentivem uma divisão mais equilibrada das responsabilidades dentro das famílias.
Somente assim será possível construir um cenário em que meninas tenham as mesmas oportunidades de tempo, estudo e desenvolvimento que os meninos.






