Uma demonstração tecnológica divulgada recentemente surpreendeu o setor de inovação ao apresentar uma experiência que parece saída da ficção científica: neurônios humanos cultivados em laboratório sendo utilizados para jogar videogame.
O experimento foi apresentado pela startup australiana Cortical Labs, que exibiu o funcionamento de seu dispositivo biológico chamado CL1 executando o clássico jogo Doom.
A apresentação mostrou como células cerebrais reais podem interagir com sistemas digitais. Em vez de depender apenas de softwares e algoritmos tradicionais, o equipamento utiliza tecido neural vivo conectado a um chip eletrônico, criando um sistema híbrido capaz de receber informações e responder com sinais que são interpretados como comandos dentro do jogo.
Como funciona o computador biológico
O sistema apresentado pela empresa é considerado um exemplo de computação biológica, uma área que busca combinar componentes vivos com tecnologia digital.
No núcleo do CL1 existem cerca de 800 mil neurônios humanos, cultivados em laboratório a partir de células-tronco obtidas de amostras de pele e sangue de doadores adultos.
Esses neurônios são cultivados sobre uma estrutura composta por microeletrodos. Essa matriz permite que estímulos elétricos sejam enviados às células, simulando informações externas. Ao mesmo tempo, os sensores registram as respostas geradas pelos neurônios, que são convertidas em comandos digitais.
Durante a demonstração, aproximadamente 200 mil neurônios foram utilizados para interpretar os sinais do jogo Doom.
Os dados do ambiente virtual foram transformados em impulsos elétricos enviados às células, que reagiram produzindo sinais capazes de controlar ações dentro do jogo, como movimentação ou direção da mira.
Apresentação internacional da tecnologia
O dispositivo CL1 foi apresentado ao público durante o Mobile World Congress 2025, realizado em Barcelona. No evento, a empresa descreveu o sistema como um dos primeiros exemplos de computador biológico com potencial de uso comercial.
A demonstração exibida no evento chamou atenção por mostrar, de forma visual, como neurônios vivos podem participar do processamento de informações digitais.
Apesar disso, os desenvolvedores explicam que a apresentação pública não foi divulgada ainda como um estudo científico revisado por pares, o que significa que os resultados continuam sendo avaliados pela comunidade acadêmica.
Pesquisas anteriores já indicavam capacidade de aprendizado
A ideia de utilizar neurônios cultivados para resolver tarefas computacionais já vinha sendo estudada antes dessa demonstração.
Em 2022, pesquisadores associados ao projeto publicaram um estudo na revista científica Neuron relatando um experimento em que culturas neuronais conseguiram aprender a jogar o game clássico Pong.
Nesse experimento, os neurônios receberam estímulos que representavam o movimento da bola e da raquete. Em poucos minutos, a rede celular reorganizou suas conexões e passou a reagir de forma mais eficiente, sugerindo que essas culturas neurais podem apresentar formas básicas de aprendizado.
Esses resultados ajudaram a sustentar a ideia de que sistemas biológicos simples podem desempenhar tarefas semelhantes às de redes neurais artificiais.
A vantagem do consumo de energia
Um dos aspectos mais discutidos sobre essa tecnologia é o seu potencial de eficiência energética. O cérebro humano, apesar de extremamente complexo, funciona consumindo cerca de 20 watts de energia, valor relativamente baixo quando comparado ao consumo de grandes centros de processamento de dados.
Segundo o cientista-chefe da Cortical Labs, Brett Kagan, um conjunto com aproximadamente 30 unidades do CL1 consome menos de um quilowatt de eletricidade. Isso representa uma diferença em relação a sistemas utilizados para treinamento de inteligência artificial, que podem exigir grande quantidade de energia.
Por esse motivo, a proposta do sistema não é competir diretamente com chips de alto desempenho usados em inteligência artificial, como os produzidos pela Nvidia, mas atuar em áreas onde aprendizado adaptativo e baixo consumo energético são características importantes.
Possíveis aplicações científicas
Apesar de a demonstração com videogame ter chamado atenção, o objetivo principal do projeto vai além do entretenimento. Os pesquisadores acreditam que computadores biológicos podem ter aplicações relevantes em diferentes áreas da ciência e da tecnologia.
Entre as possibilidades discutidas estão o desenvolvimento de robôs mais adaptáveis, a descoberta de novos medicamentos, o estudo de doenças neurológicas e a criação de modelos experimentais para entender melhor o funcionamento do cérebro humano.
Ao trabalhar diretamente com neurônios reais, cientistas podem observar respostas biológicas de forma mais próxima da realidade, o que pode ajudar a acelerar pesquisas médicas.
Caminhos paralelos na relação entre cérebro e máquinas
O avanço da computação biológica acontece ao mesmo tempo em que outras iniciativas buscam integrar o cérebro humano diretamente com computadores. Um exemplo conhecido é a empresa Neuralink, criada por Elon Musk, que desenvolve implantes capazes de conectar o cérebro humano a dispositivos digitais.
Enquanto esses projetos procuram criar interfaces entre o cérebro e máquinas externas, a proposta da Cortical Labs segue um caminho diferente: incorporar tecido biológico dentro da própria estrutura do computador.
Especialistas acreditam que, no futuro, essas duas abordagens podem convergir, permitindo novas formas de interação entre inteligência biológica e sistemas digitais.
O modelo de “neurônios como serviço”
Além da venda do dispositivo CL1, que tem preço estimado em cerca de 35 mil dólares por unidade, a empresa também propõe um modelo de acesso remoto chamado “wetware as a service”.
Nesse sistema, pesquisadores podem utilizar culturas neuronais vivas hospedadas em laboratório pagando aproximadamente 300 dólares por semana. Esse formato permitiria que universidades e centros de pesquisa realizassem experimentos sem a necessidade de manter estruturas complexas para cultivo celular.
Debate ético e regulamentação futura
Apesar do entusiasmo em torno da tecnologia, especialistas ressaltam que o uso de tecido humano em sistemas computacionais levanta questões éticas e regulatórias importantes.
A empresa afirma que as culturas neuronais utilizadas não possuem estruturas relacionadas à consciência, mas reconhece que o avanço dessa área exigirá discussões mais amplas sobre limites e regulamentações.
Entre os investidores da startup está a In‑Q‑Tel, fundo de capital de risco associado à comunidade de inteligência dos Estados Unidos, o que demonstra o interesse estratégico no desenvolvimento dessa tecnologia.
Para muitos pesquisadores, a computação biológica representa apenas o início de uma nova etapa na relação entre ciência, tecnologia e biologia, na qual neurônios vivos podem se tornar parte integrante das máquinas do futuro.





