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Bayer sofre perdas bilionárias por processos envolvendo agrotóxico

Por Leticia Florenço
06/03/2026
Em Colunas, Mais Tendências
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A multinacional alemã Bayer enfrenta um dos momentos mais delicados de sua história recente. A empresa, conhecida mundialmente por seus produtos farmacêuticos e agrícolas, acumula bilhões de euros em prejuízos ligados a uma série de processos judiciais nos Estados Unidos envolvendo o herbicida glifosato.

O problema teve origem após a aquisição da gigante agroquímica Monsanto em 2018, operação que transformou a Bayer em uma das maiores empresas do setor, mas também trouxe um enorme passivo judicial.

Os litígios estão relacionados a alegações de que o glifosato, ingrediente ativo presente no herbicida Roundup, poderia estar associado ao desenvolvimento de câncer.

Embora a empresa continue defendendo a segurança do produto com base em avaliações de órgãos reguladores, as disputas judiciais se multiplicaram e já custaram bilhões à companhia.

Processos nos Estados Unidos

Desde que adquiriu a Monsanto, a Bayer passou a enfrentar uma verdadeira avalanche de ações judiciais em tribunais norte-americanos. Ao todo, cerca de 170 mil processos foram movidos por agricultores, trabalhadores rurais e consumidores que alegam ter desenvolvido câncer após exposição prolongada ao herbicida.

Mesmo após diversos acordos e decisões judiciais, aproximadamente 65 mil casos ainda permanecem pendentes, mantendo a empresa em uma longa disputa judicial. Apenas no último ano, a Bayer destinou mais de 6 bilhões de euros para lidar com processos e acordos relacionados ao tema.

Esse cenário contribuiu diretamente para os resultados financeiros negativos da companhia, que registrou prejuízo líquido de cerca de 3,62 bilhões de euros em 2025.

O papel do glifosato

O glifosato é um dos herbicidas mais utilizados no mundo. Ele atua eliminando ervas daninhas que competem com as plantações, ajudando agricultores a aumentar a produtividade e reduzir custos no campo.

Entretanto, o produto tornou-se alvo de intenso debate científico e regulatório. A Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer, vinculada à Organização Mundial da Saúde, classificou o composto como “provavelmente cancerígeno para humanos”.

Essa avaliação contrasta com a posição de outras autoridades regulatórias. A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, por exemplo, afirma que o glifosato não apresenta evidências suficientes de causar câncer quando usado conforme as orientações.

Essa divergência entre instituições científicas e regulatórias alimenta as disputas jurídicas e gera incertezas sobre o futuro do produto.

Decisão da Suprema Corte pode definir o rumo dos processos

Um dos pontos centrais da disputa jurídica está agora nas mãos da Suprema Corte dos Estados Unidos. O tribunal deverá decidir se processos baseados em leis estaduais podem continuar mesmo quando a autoridade federal reguladora, no caso a EPA, não exige advertências sobre riscos de câncer nos rótulos dos produtos.

A decisão, aguardada para os próximos meses, pode ter impacto profundo no caso. Caso a Suprema Corte determine que as avaliações da EPA prevalecem sobre legislações estaduais, milhares de ações judiciais poderiam ser encerradas.

Para a Bayer, esse cenário representaria a possibilidade de finalmente virar a página de uma das maiores crises jurídicas de sua história.

Acordo bilionário tenta reduzir a pressão judicial

Na tentativa de reduzir a pressão nos tribunais, a Bayer anunciou recentemente um acordo coletivo que pode chegar a 7,25 bilhões de dólares para resolver milhares de processos relacionados ao glifosato.

No entanto, o acordo ainda depende de aprovação judicial e da adesão de um número significativo de demandantes. Alguns escritórios de advocacia solicitaram mais tempo para analisar os termos, o que mantém o desfecho ainda incerto.

Se um número suficiente de pessoas aceitar a proposta, o acordo poderá aliviar parte significativa das disputas em andamento.

Impacto financeiro e aumento das provisões

Diante da incerteza jurídica, a Bayer decidiu ampliar as reservas financeiras destinadas a cobrir possíveis custos judiciais. Em fevereiro, a empresa aumentou suas provisões em 4 bilhões de euros, elevando o total reservado para litígios para 11,8 bilhões de euros.

Esse valor inclui não apenas processos envolvendo o glifosato, mas também outras disputas legais enfrentadas pela companhia. Mesmo com o peso dessas despesas, a empresa conseguiu manter resultados operacionais próximos às expectativas dos analistas.

O lucro operacional ajustado ficou em 9,67 bilhões de euros, enquanto a receita anual alcançou 45,58 bilhões de euros, ligeiramente abaixo do ano anterior.

Defesa da empresa e importância para a agricultura

O CEO da Bayer, Bill Anderson, reafirma que o glifosato é seguro e desempenha um papel essencial na agricultura moderna.

Segundo o executivo, o herbicida ajuda agricultores a controlar ervas daninhas de forma eficiente, além de contribuir para práticas agrícolas que mantêm carbono no solo e reduzem o impacto ambiental do preparo intensivo da terra.

Mesmo assim, Anderson reconhece que o prolongamento das disputas judiciais representa um peso para a empresa. Para ele, resolver o impasse é fundamental para que a companhia possa concentrar seus esforços em inovação e crescimento.

Previsões para os próximos anos

Apesar das dificuldades jurídicas e financeiras, a Bayer projeta relativa estabilidade para os próximos anos. A empresa estima que sua receita anual fique entre 45 bilhões e 47 bilhões de euros, enquanto o lucro operacional antes de itens especiais deve variar entre 9,6 bilhões e 10,1 bilhões de euros.

Ainda assim, o futuro da companhia continua fortemente ligado ao desfecho dos processos relacionados ao glifosato. A decisão da Suprema Corte e a conclusão dos acordos judiciais podem definir se a Bayer conseguirá finalmente encerrar esse capítulo turbulento ou se continuará lidando com disputas que já duram anos.

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Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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