Novas pesquisas estão ajudando a decifrar um dos elementos mais misteriosos da Via Láctea: seu campo magnético. Embora não possa ser observado diretamente, ele exerce influência profunda sobre a estrutura e a dinâmica da galáxia.
Cientistas identificaram recentemente uma reversão magnética incomum em um dos braços espirais, descoberta que pode mudar a forma como os astrônomos entendem a evolução galáctica.
A importância do campo magnético galáctico
O campo magnético funciona como uma espécie de esqueleto invisível que ajuda a organizar o gás interestelar, a poeira cósmica e até o nascimento de novas estrelas.
A física Jo-Anne Brown, da Universidade de Calgary, destaca que sem esse campo a galáxia poderia se comportar de maneira muito diferente sob a ação da gravidade.
Por isso, compreender sua forma atual é essencial para prever como a Via Láctea evoluirá ao longo de bilhões de anos.
O papel do novo radiotelescópio
Para investigar algo invisível, os pesquisadores recorreram a um radiotelescópio moderno instalado no Dominion Radio Astrophysical Observatory. O equipamento permitiu varrer o céu do hemisfério norte em várias frequências de rádio, produzindo um dos mapas magnéticos mais detalhados já obtidos.
Os dados incluem o esforço internacional Global Magneto-Ionic Medium Survey, que busca montar um retrato completo do magnetismo da galáxia.
Rotação de Faraday
Para rastrear o campo magnético, a equipe analisou a chamada rotação de Faraday, um efeito que altera ondas de rádio quando elas atravessam regiões com elétrons e campos magnéticos.
A doutoranda Rebecca Booth explica que o fenômeno é semelhante ao que faz um canudo parecer torto dentro de um copo d’água. Ao medir essas pequenas torções no sinal de rádio, os cientistas conseguiram mapear a direção e a intensidade do campo magnético em vastas áreas da galáxia.
O resultado mais surpreendente apareceu no chamado Braço de Sagitário. Enquanto o campo magnético geral da Via Láctea gira no sentido horário, nessa região ele segue no sentido oposto. A transição não ocorre de forma abrupta, mas em uma faixa diagonal, algo que não era previsto pelos modelos tradicionais.
Um novo modelo
Com base nos dados coletados por Anna Ordog, Rebecca Booth desenvolveu um modelo tridimensional que explica a geometria dessa reversão.
O trabalho sugere que a mudança de direção é gradual e inclinada no espaço, o que faz com que, vista da Terra, ela apareça como uma diagonal. Esse tipo de modelagem oferece uma visão mais realista da arquitetura magnética da galáxia.
Impactos para a astronomia moderna
Os estudos publicados nas revistas The Astrophysical Journal e The Astrophysical Journal Supplement Series fornecem um conjunto de dados considerado dos mais completos já reunidos sobre o tema.
As informações devem melhorar simulações do meio interestelar, refinar modelos de evolução galáctica e ajudar na compreensão da propagação de raios cósmicos.





