Tuvalu, uma nação formada por nove ilhas e atóis no coração do Oceano Pacífico, é um dos países mais isolados do planeta.
Com apenas 26 km², fica entre a Austrália e o Havaí, acessível apenas por quatro voos semanais que partem de Fiji. A ilha principal, Fongafale, abriga Funafuti, o atol onde está concentrada a vida urbana e administrativa do país.
Mesmo nesse contexto, a criatividade econômica floresceu: a venda de domínios “.tv” para emissoras ao redor do mundo se tornou uma das principais fontes de receita do país.
Vida cotidiana sob impacto iminente
A infraestrutura de Tuvalu é limitada. O dólar australiano é a principal moeda e precisa ser importado. Motos predominam nas ruas, enquanto carros são raros e caros. A pista do aeroporto se transforma em campo de futebol quando não há aviões.
Mas esses detalhes pitorescos estão prestes a ser tragicamente ofuscados pela realidade climática: a elevação média do país em relação ao mar é de apenas três metros.
Ciclones mais frequentes, tempestades anormais e ressacas já eram registradas desde os anos 1980, mas a situação se agravou de forma dramática nas últimas décadas.
Em 2021, o então primeiro-ministro Simon Kofe se tornou símbolo da urgência do problema, ao fazer um discurso na Conferência do Clima da ONU de dentro da água, alertando que “o mar está subindo ao nosso redor o tempo todo”.
Migração climática
Relatórios da Nasa indicam que o nível do mar subiu 15 cm em Tuvalu nas últimas três décadas, e a previsão é de aumento contínuo. Até 2050, grande parte do território habitável pode ficar permanentemente submersa.
Em resposta, um acordo histórico foi firmado com a Austrália em 2025: 280 cidadãos poderiam se mudar para o país a cada ano, com sorteio para definir os beneficiados. Mais de 5 mil habitantes se inscreveram, quase metade da população total.
Essa decisão representa uma mudança de mentalidade. Enquanto em 2019 os moradores reafirmavam que permaneceriam em Tuvalu “aconteça o que acontecer”, hoje a realidade de que a sobrevivência física está em risco força reconsiderações.
O colonialismo do carbono e interesses econômicos
O desafio de Tuvalu não é apenas ambiental. Em 2019, o então embaixador da Austrália sugeriu oferecer residência fixa aos habitantes do Pacífico em troca do controle das zonas econômicas e áreas de pesca do país.
A proposta foi considerada uma forma de “colonialismo do carbono” pelo governo local, pois impõe interesses externos sobre recursos soberanos diante de uma crise climática.
Casos semelhantes surgem em outras regiões do mundo: no Quênia, Uganda, Tailândia e Amazônia, projetos de compensação ambiental e de preservação de florestas acabaram restringindo direitos de povos indígenas e comunidades locais, frequentemente sem consulta prévia ou compensação adequada.
A crise climática, assim, se entrelaça com disputas geopolíticas e econômicas.
Estratégias para permanecer
Apesar do risco iminente, nem todos os moradores querem deixar Tuvalu. Para aqueles que optam por ficar, projetos de adaptação estão em andamento. O Projeto de Adaptação Costeira de Tuvalu (TCAP) elevou áreas do solo e reforçou o litoral com barreiras naturais e muros de contenção.
A fase seguinte, TCAP II, visa proteger novos trechos da costa e criar 8 hectares adicionais de terra elevada, com previsão de conclusão em 2026.
Além disso, o Plano de Adaptação a Longo Prazo, denominado “Te Lafiga o Tuvalu”, prevê a construção de 3,6 km² de território seguro, garantindo água potável, segurança alimentar, energia renovável e espaço urbano adequado para toda a população.
O tempo da adaptação
Tuvalu simboliza a urgência da crise climática. O país enfrenta a escolha entre migrar com dignidade ou lutar para permanecer em território próprio, protegido por obras e planejamentos ambiciosos.
O caso de Tuvalu é um alerta global. Ele mostra que os efeitos das mudanças climáticas são irreversíveis a curto prazo e que, para milhões de pessoas ao redor do mundo, decisões sobre onde viver não são mais opções, são questões de sobrevivência.






