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Mineração no fundo do mar gera alerta após novas evidências ambientais

Por Leticia Florenço
21/02/2026
Em Colunas, Mais Tendências
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A exploração mineral no fundo do oceano deixou de ser apenas um projeto teórico e passou a ganhar contornos concretos com testes industriais em regiões remotas do planeta.

Um dos mais importantes ocorreu na zona de fratura de Clarion Clipperton, no Oceano Pacífico, entre o México e o Havaí.

A iniciativa reacendeu alertas científicos ao revelar impactos ambientais imediatos e mensuráveis em um dos ecossistemas menos conhecidos da Terra: a planície abissal, a mais de 4.000 metros de profundidade.

O que está em jogo no fundo do oceano

A mineração em águas profundas é defendida por empresas e alguns governos como alternativa estratégica para suprir a demanda por metais essenciais à transição energética, como níquel, cobalto e manganês, fundamentais para baterias e tecnologias de energia limpa.

No entanto, os nódulos polimetálicos que concentram esses minerais levam milhões de anos para se formar, crescendo apenas alguns milímetros ao longo de eras geológicas. Sua extração representa, portanto, a remoção de um recurso praticamente não renovável em escala humana.

Mais do que isso, esses nódulos funcionam como base física para inúmeras formas de vida marinha. Ao serem retirados, não se perde apenas minério: elimina-se também o suporte estrutural de comunidades biológicas inteiras.

O primeiro teste industrial e seus resultados alarmantes

O estudo foi conduzido por um consórcio internacional liderado pelo Museu de História Natural de Londres. Durante cinco anos, cientistas acompanharam a área antes e depois da passagem de um equipamento industrial capaz de aspirar nódulos a aproximadamente 4.300 metros de profundidade.

Em poucas horas de operação, cerca de 3.300 toneladas de nódulos polimetálicos foram removidas. O impacto foi significativo: dentro das crateras abertas no sedimento, a diversidade de espécies caiu aproximadamente 32%. A densidade de organismos também diminuiu de forma expressiva.

A pesquisa utilizou o método científico conhecido como Impacto Antes-Depois-Controle, que compara áreas mineradas com regiões próximas não afetadas, permitindo distinguir alterações naturais de mudanças causadas diretamente pela atividade humana.

Biodiversidade invisível e surpreendente

Nos laboratórios, os pesquisadores identificaram mais de 4.300 organismos com mais de 0,25 milímetros, organizados em 788 espécies distintas. Entre eles estavam vermes, pequenos crustáceos, moluscos e até um coral solitário aderido aos nódulos, descrito como uma nova espécie para a ciência.

A descoberta reforça a percepção de que o fundo do mar abriga uma biodiversidade muito mais rica e fragmentada do que se imaginava.

Muitas espécies apresentam distribuição irregular em escalas de poucos metros, o que torna extremamente difícil prever a capacidade de recuperação do ecossistema após uma intervenção de grande escala.

Além da área diretamente minerada, regiões afetadas apenas pela nuvem de sedimentos suspensos também apresentaram alterações na composição das espécies dominantes, evidenciando que os efeitos vão além do ponto de extração.

Cicatrizes que duram décadas

Mesmo em estudos anteriores realizados em outras bacias oceânicas, vestígios físicos de perturbações experimentais ainda eram visíveis décadas depois. Embora alguns organismos móveis consigam recolonizar áreas impactadas, outros simplesmente não retornam, pelo menos no médio prazo.

A própria variabilidade natural do ambiente abissal, influenciada pela chegada irregular de matéria orgânica da superfície, já provoca mudanças na composição biológica. A mineração adiciona uma camada extra de pressão sobre um sistema que ainda está longe de ser plenamente compreendido.

O papel da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos

A exploração em águas internacionais é regulada pela Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos, órgão vinculado à ONU que vem debatendo há anos um Código de Mineração para estabelecer regras ambientais e critérios de licenciamento.

Enquanto negociações avançam lentamente, cresce a pressão de cientistas e organizações ambientais por uma moratória global.

A preocupação central é que decisões comerciais sejam tomadas antes que se conheçam os limites ecológicos do fundo do mar e antes que se definam parâmetros claros de perda máxima aceitável de biodiversidade.

Transição energética versus crise da biodiversidade

O debate sobre mineração submarina se conecta diretamente a duas grandes crises contemporâneas: as mudanças climáticas e a perda acelerada de biodiversidade.

De um lado, a necessidade urgente de metais para tecnologias limpas. De outro, o risco de abrir uma nova fronteira extrativa em um ambiente praticamente inexplorado.

Fóruns internacionais, como a Conferência dos Oceanos da ONU, têm discutido a ampliação de áreas marinhas protegidas em alto-mar. Muitos especialistas defendem que qualquer tratado global inclua salvaguardas específicas contra a exploração irreversível do leito oceânico.

Os resultados obtidos na região de Clarion Clipperton oferecem um dos primeiros retratos quantitativos do impacto real de máquinas comerciais operando no fundo do mar. Eles mostram que os efeitos são imediatos, profundos e potencialmente duradouros.

A decisão agora recai sobre governos e organismos internacionais: avançar com a exploração em nome da transição energética ou adotar o princípio da precaução até que se compreenda melhor um ecossistema do qual conhecemos apenas uma fração.

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Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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