A tentativa da Shein de transformar o Brasil em um grande polo de produção na América Latina começou com promessas ousadas, investimentos milionários e geração massiva de empregos.
No entanto, o plano esbarrou em um obstáculo difícil de contornar: a incompatibilidade entre o modelo ultrarrápido e barato da varejista chinesa e a realidade da indústria têxtil brasileira.
Desde o início, a estratégia de nacionalização foi apresentada como uma solução para reduzir impostos, acelerar entregas e fortalecer a imagem da marca no país. Na prática, porém, os custos locais mostraram-se altos demais para sustentar o padrão de preços exigido pela empresa.
Pressão extrema sobre preços e margens
O coração do problema está no modelo de negócios da Shein, baseado em fast-fashion agressivo, com preços extremamente baixos e prazos apertados. Confecções brasileiras relataram que, após os primeiros pedidos, a empresa passou a exigir reduções bruscas nos valores acordados.
Casos emblemáticos mostram a discrepância: peças que inicialmente custavam R$ 50 precisariam passar a R$ 38; jaquetas avaliadas em R$ 65 deveriam cair para R$ 45. Para os fabricantes nacionais, a conta simplesmente não fecha, especialmente diante de custos com mão de obra, energia, impostos e matéria-prima.
Diante dessas exigências, diversos empresários optaram por encerrar as parcerias. Fabricantes do Nordeste relataram que o plano de crescimento se tornou inviável, não por falta de capacidade produtiva, mas pela impossibilidade de operar com margens tão reduzidas.
Executivos do setor confirmaram que a produção local ficou muito aquém das metas traçadas pela Shein, frustrando expectativas de expansão rápida e consistente no território brasileiro.
Infraestrutura brasileira não replica o modelo chinês
Outro fator decisivo foi a dificuldade de reproduzir, no Brasil, a estrutura altamente integrada existente na China. Por lá, milhares de fábricas estão concentradas próximas a fornecedores de tecidos, aviamentos e logística, criando um ecossistema extremamente eficiente.
No Brasil, a realidade é oposta:
- Fábricas espalhadas geograficamente
- Cadeias de fornecimento fragmentadas
- Leis trabalhistas mais rigorosas
- Custos logísticos elevados
Essa combinação torna inviável replicar o ritmo e o custo do modelo chinês em solo brasileiro.
Reconhecimento público do fracasso parcial
A própria Shein reconheceu que o plano não evoluiu como esperado. Em declaração à Reuters, a empresa admitiu que a nacionalização da produção “exigiu mais tempo para amadurecer” e que as diferenças estruturais entre os dois países atrasaram o avanço da estratégia.
Representantes da indústria têxtil brasileira lamentaram o desfecho, destacando que “trabalhar no Brasil é diferente da China”, tanto em custos quanto em organização produtiva.
Investimento prometido e expectativas frustradas
Em 2023, a Shein anunciou um investimento de cerca de US$ 150 milhões, com a promessa de criar 100 mil empregos até 2026. O plano ganhou ainda mais força após a criação da chamada “taxa das blusinhas”, que encareceu importações de baixo valor e incentivou a produção local.
A meta era nacionalizar 85% das vendas no Brasil. No primeiro ano, foram firmadas parcerias com mais de 300 fábricas. Ainda assim, o ritmo ficou distante do esperado.
Com as dificuldades, a Shein decidiu mudar de rumo. A empresa informou que seguirá com uma abordagem mais cautelosa e seletiva, priorizando fábricas consideradas mais estruturadas e tecnicamente capacitadas, em vez de expandir a produção em larga escala.
Mesmo com o revés industrial, o Brasil continua sendo um mercado-chave para a Shein. O país ocupa a posição de segundo maior mercado da marca fora dos Estados Unidos, e o marketplace segue operando com dezenas de milhares de vendedores locais.





