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Valores inviáveis tira Shein do Brasil e empresa revela fracasso

Por Leticia Florenço
06/02/2026
Em Colunas, Mais Tendências
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SHEIN - Foto: (Imagem/Reprodução)

SHEIN - Foto: (Imagem/Reprodução)

A tentativa da Shein de transformar o Brasil em um grande polo de produção na América Latina começou com promessas ousadas, investimentos milionários e geração massiva de empregos.

No entanto, o plano esbarrou em um obstáculo difícil de contornar: a incompatibilidade entre o modelo ultrarrápido e barato da varejista chinesa e a realidade da indústria têxtil brasileira.

Desde o início, a estratégia de nacionalização foi apresentada como uma solução para reduzir impostos, acelerar entregas e fortalecer a imagem da marca no país. Na prática, porém, os custos locais mostraram-se altos demais para sustentar o padrão de preços exigido pela empresa.

Pressão extrema sobre preços e margens

O coração do problema está no modelo de negócios da Shein, baseado em fast-fashion agressivo, com preços extremamente baixos e prazos apertados. Confecções brasileiras relataram que, após os primeiros pedidos, a empresa passou a exigir reduções bruscas nos valores acordados.

Casos emblemáticos mostram a discrepância: peças que inicialmente custavam R$ 50 precisariam passar a R$ 38; jaquetas avaliadas em R$ 65 deveriam cair para R$ 45. Para os fabricantes nacionais, a conta simplesmente não fecha, especialmente diante de custos com mão de obra, energia, impostos e matéria-prima.

Diante dessas exigências, diversos empresários optaram por encerrar as parcerias. Fabricantes do Nordeste relataram que o plano de crescimento se tornou inviável, não por falta de capacidade produtiva, mas pela impossibilidade de operar com margens tão reduzidas.

Executivos do setor confirmaram que a produção local ficou muito aquém das metas traçadas pela Shein, frustrando expectativas de expansão rápida e consistente no território brasileiro.

Infraestrutura brasileira não replica o modelo chinês

Outro fator decisivo foi a dificuldade de reproduzir, no Brasil, a estrutura altamente integrada existente na China. Por lá, milhares de fábricas estão concentradas próximas a fornecedores de tecidos, aviamentos e logística, criando um ecossistema extremamente eficiente.

No Brasil, a realidade é oposta:

  • Fábricas espalhadas geograficamente
  • Cadeias de fornecimento fragmentadas
  • Leis trabalhistas mais rigorosas
  • Custos logísticos elevados

Essa combinação torna inviável replicar o ritmo e o custo do modelo chinês em solo brasileiro.

Reconhecimento público do fracasso parcial

A própria Shein reconheceu que o plano não evoluiu como esperado. Em declaração à Reuters, a empresa admitiu que a nacionalização da produção “exigiu mais tempo para amadurecer” e que as diferenças estruturais entre os dois países atrasaram o avanço da estratégia.

Representantes da indústria têxtil brasileira lamentaram o desfecho, destacando que “trabalhar no Brasil é diferente da China”, tanto em custos quanto em organização produtiva.

Investimento prometido e expectativas frustradas

Em 2023, a Shein anunciou um investimento de cerca de US$ 150 milhões, com a promessa de criar 100 mil empregos até 2026. O plano ganhou ainda mais força após a criação da chamada “taxa das blusinhas”, que encareceu importações de baixo valor e incentivou a produção local.

A meta era nacionalizar 85% das vendas no Brasil. No primeiro ano, foram firmadas parcerias com mais de 300 fábricas. Ainda assim, o ritmo ficou distante do esperado.

Com as dificuldades, a Shein decidiu mudar de rumo. A empresa informou que seguirá com uma abordagem mais cautelosa e seletiva, priorizando fábricas consideradas mais estruturadas e tecnicamente capacitadas, em vez de expandir a produção em larga escala.

Mesmo com o revés industrial, o Brasil continua sendo um mercado-chave para a Shein. O país ocupa a posição de segundo maior mercado da marca fora dos Estados Unidos, e o marketplace segue operando com dezenas de milhares de vendedores locais.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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