O epidemiologista brasileiro Carlos Augusto Monteiro é referência internacional em nutrição e saúde pública.
Pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), ele lidera o Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens), onde desenvolveu estudos pioneiros sobre alimentação e doenças crônicas.

Monteiro é o responsável por popularizar o conceito de alimentos ultraprocessados, que hoje é usado globalmente para analisar padrões de consumo e seus impactos na saúde.
A criação do conceito de ultraprocessados
O termo “alimentos ultraprocessados” surgiu de um trabalho coletivo de pesquisa conduzido por Monteiro e sua equipe na USP.
Diferente de alimentos tradicionais, esses produtos são feitos a partir de ingredientes isolados, como gorduras, açúcares e proteínas, e enriquecidos com aditivos cosméticos, como aromatizantes, corantes e emulsificantes.
A intenção é tornar os produtos mais saborosos e viciantes, estimulando o consumo excessivo e substituindo a alimentação caseira tradicional.
Riscos à saúde
Estudos liderados por Monteiro mostram que o consumo crescente de ultraprocessados está ligado a obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares e outras enfermidades crônicas.
Esses alimentos combinam alta densidade calórica com baixa presença de fibras e nutrientes essenciais, criando um efeito de saciedade enganosa. O corpo humano não está adaptado para metabolizar essas formulações artificiais, e o resultado é um padrão alimentar prejudicial à saúde pública.
A indústria por trás dos ultraprocessados
Monteiro explica que a produção desses alimentos segue um modelo de negócios altamente lucrativo. Ingredientes baratos e de longa durabilidade são transformados por tecnologia alimentar avançada em produtos irresistíveis.
O objetivo das corporações é maximizar lucros, muitas vezes à custa da saúde da população. Produtos como pães industrializados, iogurtes artificiais, refrigerantes e snacks são fabricados para estimular consumo contínuo e substituem alimentos tradicionais, como arroz, feijão, leite e frutas.
Reconhecimento internacional
O trabalho de Monteiro ganhou destaque internacional, culminando em uma edição especial da revista científica The Lancet. O volume incluiu artigos sobre os impactos dos ultraprocessados, um perfil da carreira do cientista e um editorial reforçando que “a saúde pública precisa estar à frente dos lucros”.
Monteiro defende políticas públicas semelhantes às do controle do tabaco, como taxação, restrição de publicidade e rotulagem clara, para reduzir os danos causados por esses alimentos.
Antes focadas na desnutrição infantil, as pesquisas de Monteiro passaram a investigar as causas da epidemia global de obesidade.
Ele e sua equipe observaram que o excesso de gordura e açúcar na dieta não vinha dos alimentos tradicionais, mas de produtos ultraprocessados, abrindo caminho para novas estratégias de prevenção e conscientização.





