Uma pesquisa científica recente revelou que o Oceano Atlântico, que banha todo o litoral brasileiro, sofre impactos profundos e potencialmente graves durante a ocorrência do El Niño.
O estudo mostra que o fenômeno climático, conhecido principalmente por seus efeitos no Oceano Pacífico, também provoca mudanças significativas no Atlântico, com consequências diretas para o clima, os rios e a atividade pesqueira em diferentes regiões do Brasil e de outros países da África e da América do Sul.
Pesquisa descobre que Oceano Atlântico é afetado pelo El Niño de formas graves
A pesquisa foi publicada na revista científica Nature Reviews Earth & Environment e reúne resultados de diversos estudos internacionais.
O trabalho foi desenvolvido por pesquisadores de universidades e centros de pesquisa da Europa, da África e do Brasil, com financiamento da União Europeia.
Entre os autores estão cientistas brasileiros que analisaram como o El Niño–Oscilação Sul, conhecido pela sigla ENOS, influencia processos físicos, químicos e biológicos no Atlântico.
O El Niño é um fenômeno climático natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico equatorial, associado a mudanças na pressão atmosférica e na circulação dos ventos.
Essas alterações não ficam restritas ao Pacífico. Elas se propagam pela atmosfera e afetam outros oceanos, alterando padrões de chuva, temperatura e circulação das correntes marítimas em escala global.
Segundo a pesquisa, no Oceano Atlântico essas mudanças têm efeitos práticos importantes. O estudo aponta que o ENOS interfere na quantidade de chuvas, no volume de água despejado por grandes rios, na salinidade e na temperatura do mar.
Esses fatores determinam a disponibilidade de nutrientes e de oxigênio na água, elementos essenciais para o fitoplâncton, que sustenta toda a cadeia alimentar marinha.
Efeitos do El Niño no Oceano Atlântico e riscos
No Norte do Brasil, por exemplo, episódios de El Niño costumam reduzir as chuvas na Amazônia. Com menos chuva, o rio Amazonas despeja menos água e nutrientes no oceano, enfraquecendo a produtividade marinha em parte da costa.
Isso pode diminuir a abundância de algumas espécies de peixes, embora favoreça outras, como o camarão marrom, que se beneficia de águas mais claras.
Já no Sul do país, o fenômeno tende a provocar o efeito oposto, com aumento das chuvas e maior entrada de nutrientes no oceano, o que pode favorecer determinadas pescarias.
Em áreas mais afastadas da costa, como no Atlântico Sul central, os pesquisadores identificaram relação entre o El Niño e o aumento da captura de espécies comerciais como a albacora, um tipo de atum.
Os cientistas alertam, no entanto, que esses impactos não seguem um padrão fixo. As respostas variam conforme a espécie, a região e o período analisado, o que aumenta os riscos para a gestão pesqueira.
Além disso, a falta de séries históricas consistentes e limitações no monitoramento por satélite dificultam previsões mais precisas.
Diante de um cenário de mudanças climáticas que pode intensificar o El Niño, os autores destacam a urgência de ampliar o monitoramento oceânico e adotar estratégias de manejo adaptadas às realidades locais.
Segundo o estudo, compreender melhor como o Atlântico reage ao fenômeno é essencial para reduzir riscos ambientais, econômicos e sociais nas regiões costeiras.






