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Arqueólogos desenterram jarro repleto de moedas de 1.800 anos atrás

Por Leticia Florenço
12/12/2025
Em Colunas, Mais Tendências
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Foto: Simon Ritz, Inrap

Foto: Simon Ritz, Inrap

No nordeste da França, arqueólogos revelaram um achado impressionante: três grandes jarros de cerâmica enterrados sob antigas casas romanas, cada um repleto de milhares de moedas de bronze e cobre do século III d.C.

A descoberta ocorreu sob a atual cidade de Senon e trouxe à tona não apenas um tesouro monetário, mas um retrato detalhado de como comunidades romanas organizavam sua vida econômica em tempos de instabilidade.

O bairro esquecido sob a cidade moderna

A escavação, conduzida pelo Instituto Nacional de Pesquisa Arqueológica Preventiva da França (INRAP), cobriu uma área de cerca de 1.500 metros quadrados.

Sob o solo urbano, surgiram ruas, casas, oficinas e pátios que revelam a transformação gradual de Senon, de um povoado celta a um bairro romano estruturado, até seu abandono definitivo após incêndios sucessivos.

Antes de Roma

As camadas mais antigas do sítio arqueológico datam de meados do século II a.C. Valas, fossos e buracos de postes indicam construções de madeira e barro, típicas de um assentamento celta densamente ocupado.

Na época, a região era habitada pelos Mediomatrici, um povo cuja capital ficava onde hoje está Metz. Mesmo antes da chegada romana, Senon já apresentava sinais de organização e crescimento.

Com a conquista da Gália por Júlio César, o cenário mudou radicalmente. Pedreiras de calcário surgiram atrás das casas, algumas com quase três metros de profundidade, alimentando um longo período de expansão urbana.

Essas cavidades, após o uso inicial, passaram a servir como adegas, depósitos ou espaços domésticos, mostrando a capacidade de adaptação dos moradores.

Casas confortáveis

No final do século I d.C., o bairro atingiu sua configuração mais sofisticada. Ruas pavimentadas organizavam fileiras de casas de pedra com pisos de cal, fornos, adegas e sistemas de aquecimento por hipocausto, uma tecnologia avançada para a época.

Os objetos encontrados sugerem que ali viviam artesãos e comerciantes relativamente prósperos, integrados à economia regional.

Incêndios e tempos de incerteza

Camadas espessas de cinzas revelam que o bairro enfrentou incêndios devastadores. Um deles, ocorrido entre o fim do século III e o início do IV, marca um momento crítico.

Foi nesse contexto de instabilidade que alguém decidiu enterrar três grandes ânforas cheias de moedas sob o piso de uma casa, talvez como forma de proteção ou organização financeira.

O enigma das moedas enterradas

Os jarros continham moedas com efígies de imperadores como Victorino, Tétrico I e Tétrico II, líderes do chamado Império Gálico, que se separou temporariamente de Roma.

Um dos recipientes guardava cerca de 38 quilos de moedas, algo em torno de 23 a 24 mil unidades, e outro pode ter armazenado até 19 mil moedas adicionais. No total, o conjunto pode ultrapassar 40 mil peças.

Apesar do volume impressionante, os arqueólogos alertam que o achado não deve ser visto apenas como um tesouro escondido às pressas. Evidências mostram que os jarros permaneciam acessíveis pelo piso da casa, e algumas moedas ficaram presas na parte externa dos recipientes, sinal de que eram abertos e reutilizados.

A hipótese mais aceita é a de um sistema de armazenamento contínuo, semelhante a um banco doméstico.

A presença militar e o controle local

A cerca de 150 metros do local, existia uma fortificação romana ativa na mesma época. Isso levanta a possibilidade de que soldados ou administradores estivessem envolvidos na gestão do dinheiro, reforçando a ideia de uma economia local organizada mesmo em períodos de crise política.

Após o primeiro grande incêndio, os moradores reconstruíram suas casas, reutilizando pedras de templos e edifícios públicos já abandonados. A vida persistiu por algumas décadas em meio a ruínas reaproveitadas. Porém, um novo incêndio, em meados do século IV, selou o destino do bairro. Desta vez, ninguém voltou.

Do esquecimento à redescoberta

Com o colapso das casas, os jarros de moedas foram soterrados por escombros e pelo tempo. Pomares cresceram sobre o local, que virou área agrícola no século XVIII. Somente agora, com obras modernas, Senon revelou novamente seu passado.

As moedas, silenciosas por quase dois milênios, voltaram à luz para contar a história de uma cidade, de seus habitantes e de como lidavam com riqueza, risco e sobrevivência no fim do Império Romano.

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Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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