Pelo menos 197 crianças nasceram na Europa a partir de amostras de esperma que carregavam uma mutação genética severa, descoberta apenas muitos anos depois de o material ter sido distribuído.
O caso, revelado por uma investigação conduzida por emissoras públicas europeias, expôs falhas nos controles de segurança de bancos de sêmen e acendeu um alerta entre especialistas em genética e oncologia infantil.
197 crianças foram geradas com esperma com mutação genética grave
O doador, que começou a entregar amostras em 2005 enquanto ainda estudava, desconhecia que parte de suas células carregava uma alteração no gene TP53.
Esse gene tem papel central na prevenção da formação de tumores. No corpo dele, a mutação aparecia apenas em uma fração das células e não produzia sinais clínicos.
Nos espermatozoides, porém, a alteração estava presente em proporção suficiente para que muitas das crianças concebidas herdassem o problema em todas as células do organismo.
A condição transmitida é compatível com a síndrome de Li-Fraumeni, conhecida por elevar de forma acentuada o risco de câncer ao longo da vida.
Tumores podem surgir ainda na infância e, no caso das mulheres, o risco de câncer de mama se torna especialmente elevado na fase adulta.
Até agora, dezenas de crianças já foram diagnosticadas com a mutação e parte delas desenvolveu algum tipo de câncer. Há também relatos de mortes atribuídas às consequências da síndrome.
O Banco Europeu de Sêmen, responsável por distribuir o material para diversos países, reconheceu que o número de usos das amostras superou limites recomendados em algumas regiões.
A instituição afirma que suspendeu o doador assim que a mutação foi identificada e alega que testes genéticos comuns não seriam capazes de detectar esse tipo de alteração, que surge ainda na formação embrionária do indivíduo.
Crianças que herdaram mutação carregarão problemas para sempre
Para as famílias, o impacto é permanente. Crianças que herdaram a mutação genética precisam de acompanhamento médico minucioso, com exames periódicos de ressonância magnética e ultrassonografia para detectar tumores em estágios iniciais.
Em alguns casos, decisões preventivas difíceis podem surgir, como a retirada profilática das mamas em mulheres adultas.
O número total de filhos gerados com o esperma ainda pode aumentar, já que nem todos os países forneceram dados completos.
Enquanto autoridades de saúde discutem medidas para evitar que casos semelhantes se repitam, médicos e especialistas alertam que o episódio revela a necessidade de revisar protocolos de triagem genética e de estabelecer limites mais rígidos para o uso repetido de amostras de um mesmo doador.






