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Teoria do fim do mundo está deixando internautas assustados

Por Leticia Florenço
10/12/2025
Em Colunas, Mais Tendências
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fim do mundo

Fim do Mundo - Reprodução/iStock

A calmaria da voz do pastor sul-africano Joshua Mhlakela contrastou com o impacto de suas palavras. Em uma entrevista de quase uma hora, ele afirmou ter recebido uma revelação divina que marcava a virada do dia 23 para 24 de setembro como o momento do fim do mundo.

Bastaram alguns trechos recortados e compartilhados nas redes sociais para que a profecia ganhasse força mundial, reproduzida, discutida e temida em plataformas como TikTok, YouTube e X.

O motivo da viralização não se limitou ao conteúdo religioso: a data coincidia com o Rosh Hashaná, o Ano Novo Judaico, tradicionalmente marcado pelo toque do shofar, elemento facilmente associado às trombetas apocalípticas descritas no Novo Testamento.

Assim, religião, tradição e internet se cruzaram e alimentaram o imaginário coletivo sobre um possível desfecho catastrófico.

Por que a teoria do fim do mundo se espalhou tão rápido?

A mistura de fatores que molda a sociedade atual é fértil para que previsões apocalípticas ganhem destaque. Para estudiosos da religião, como Francisco Borba Ribeiro Neto, vivemos um tempo de ansiedade global: guerras, desastres climáticos, crises econômicas e uma constante sensação de imprevisibilidade.

Tudo isso contribui para que mensagens que prometem respostas, mesmo as mais extremas, encontrem terreno fértil.

O neopentecostalismo, muito presente nas redes, reforça leituras literais de textos bíblicos e, em momentos de incerteza, teorias como o arrebatamento oferecem não apenas explicações para o caos, mas também uma narrativa de esperança para os fiéis: a ideia de serem escolhidos para escapar da destruição final.

A leitura religiosa e o imaginário do arrebatamento

A profecia de Mhlakela retoma trechos conhecidos da Primeira Carta de Paulo aos Tessalonicenses, onde se descreve que os mortos em Cristo ressuscitariam primeiro e os vivos seriam levados com eles ao encontro de Jesus nas nuvens.

Essa narrativa é central para a crença no arrebatamento, evento no qual os cristãos seriam retirados da Terra antes de uma grande tribulação de sete anos.

A ideia, no entanto, não é consensual dentro do cristianismo. Há interpretações que situam o arrebatamento antes da tribulação, outras no meio e outras somente após todos os sofrimentos profetizados. A própria Igreja Católica rejeita essa doutrina, classificando-a como uma leitura moderna e não alinhada à tradição milenar.

Profecias anteriores e o ciclo do medo

A previsão de Mhlakela não é a primeira a ganhar atenção global. O século 20 e o início do século 21 foram marcados por inúmeros prognósticos que não se concretizaram. Entre eles:

  • Harold Camping, que anunciou o fim do mundo para 1994 e novamente para 2011;
  • Jack Van Impe, que acreditava que o papa Francisco seria o último pontífice antes do fim;
  • Pastores, evangelistas e líderes midiáticos norte-americanos que associaram guerras, pandemias e desastres naturais a sinais claros de que o fim dos tempos havia começado.

Mesmo quando falham, essas previsões mantêm o interesse popular, um ciclo onde a profecia cai, mas o medo permanece.

A explicação dos especialistas

Sociólogos lembram que a sensação de insegurança atual é uma das maiores da história recente. A promessa de tecnologia e desenvolvimento do século 20 não se converteu em estabilidade universal.

Pelo contrário, crises climáticas e instabilidades políticas fizeram surgir uma percepção de que o mundo está sempre à beira do caos.

Nessa atmosfera de incerteza, teorias de fim do mundo funcionam como válvulas de escape para grupos que buscam ordem em meio ao desconhecido.

O sociólogo Ribeiro Neto destaca que, diferentemente das sociedades antigas, onde mitos eram fortalecedores do grupo, hoje o apocalipse é consumido em bolhas, pequenos grupos que utilizam narrativas apocalípticas como formas de enfrentamento (ou fuga) emocional.

O arrebatamento como construção moderna

Embora muitos pensem que a teoria é antiga, o arrebatamento moderno se popularizou apenas no século 19, com o pastor John Nelson Darby e, posteriormente, com a Bíblia de Scofield, cujas notas explicativas transformaram essa interpretação numa doutrina dominante em várias correntes protestantes.

No entanto, teólogos afirmam que Paulo escrevia para uma comunidade desesperada, tentando impedir que os primeiros cristãos abandonassem suas vidas para esperar a volta iminente de Cristo. O arrebatamento, portanto, seria menos uma previsão literal e mais um chamado à esperança e perseverança.

As profecias apocalípticas sempre existiram, mas a internet deu a elas uma velocidade e alcance inéditos. O arrebatamento anunciado por Mhlakela ilustra como crenças antigas se adaptam perfeitamente ao ambiente das redes sociais, onde narrativas emocionais ganham destaque e se espalham rapidamente.

No fim, a pergunta que permanece não é se o mundo realmente vai acabar em uma data marcada, mas por que tantos continuam acreditando, e viralizando, que isso pode acontecer a qualquer momento.

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Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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