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Estudo desvenda o enigma evolutivo do beijo ao traçar sua trajetória entre primatas antigos

Por Leticia Florenço
27/11/2025
Em Colunas, Mais Tendências
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Beijo - Reprodução/Unsplash

Beijo - Reprodução/Unsplash

Um novo estudo da Universidade de Oxford propõe uma reviravolta surpreendente na história do beijo: o gesto pode ter surgido há mais de 20 milhões de anos, muito antes dos primeiros humanos caminharem pela Terra.

Embora registros escritos mais antigos estejam na Mesopotâmia e no Egito Antigo, cerca de 4.500 anos atrás, a pesquisa sugere que ancestrais de grandes macacos e humanos primitivos, incluindo os Neandertais, provavelmente já uniam os lábios com parceiros sociais e sexuais.

Essa descoberta amplia em milhões de anos a cronologia do beijo, apontando-o como um comportamento profundamente enraizado na linhagem evolutiva dos primatas.

Por que o beijo intriga os cientistas

O beijo sempre foi considerado um enigma evolutivo. Ele envolve riscos evidentes, como elevada transmissão de doenças, e não apresenta vantagens diretas para reprodução ou sobrevivência.

Além disso, apenas 46% das culturas humanas praticam o beijo romântico. A grande questão para biólogos evolutivos é entender por que um comportamento arriscado, não essencial, e nem sempre presente nas sociedades humanas, persistiu ao longo de milhões de anos entre primatas.

Essa contradição fez do beijo um dos comportamentos mais intrigantes para a ciência do comportamento animal.

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Sem fósseis que possam mostrar o movimento dos lábios, a equipe de pesquisadores precisou adotar uma abordagem indireta. Eles revisaram décadas de estudos sobre primatas e identificaram quais espécies modernas beijam, como chimpanzés, bonobos, orangotangos e uma espécie de gorila.

Em seguida, usaram uma análise filogenética para reconstruir relações evolutivas com base em dados genéticos. Para testar diferentes possibilidades evolutivas, rodaram modelos estatísticos 10 milhões de vezes.

Os resultados sugerem que o beijo é um traço antigo, surgido entre 21,5 e 16,9 milhões de anos atrás, em um ancestral comum dos grandes macacos.

Beijos entre ancestrais humanos e primatas antigos

Se chimpanzés, bonobos e humanos beijam, a probabilidade de que o último ancestral comum desses grupos também beijasse é alta. Com isso, espécies extintas como os Neandertais provavelmente também praticavam o gesto.

Como sabemos que Homo sapiens e Neandertais cruzaram entre si, é plausível que tenham trocado beijos, compartilhado intimidade e formado laços através desse comportamento.

A pesquisa sugere que o beijo não surgiu com os humanos modernos, mas foi herdado de linhagens muito mais antigas e profundas.

Possíveis funções evolutivas do beijo ao longo da história

Embora o estudo não determine exatamente por que o beijo evoluiu, ele abre espaço para interpretações importantes.

O gesto pode ter ajudado a avaliar parceiros por sinais químicos, facilitado a criação de laços sociais, servido como preliminar sexual, reduzido tensões dentro do grupo e até participado no cuidado parental, como quando pais pré-mastigavam alimentos para filhotes.

Essa multiplicidade de funções mostra que o beijo talvez tenha sido útil em diferentes contextos sociais e biológicos, contribuindo para sua preservação ao longo do tempo.

As limitações de estudar primatas em cativeiro

Grande parte dos dados disponíveis sobre beijos entre primatas vem de observações em cativeiro ou santuários. Isso limita a compreensão de como o gesto ocorre na natureza. Além disso, muitas espécies de primatas selvagens são pouco estudadas ou vivem em ambientes onde o comportamento é difícil de ser presenciado.

Para avançar, os cientistas precisam expandir o número de espécies observadas e analisar as circunstâncias em que o beijo ocorre, o que pode revelar nuances completamente desconhecidas.

O beijo não é universal entre humanos

Apesar da imagem romântica popular, o beijo não está presente em todas as culturas humanas. Em diversas populações, ele simplesmente não faz parte das práticas afetivas, sociais ou sexuais.

Isso mostra que o gesto, embora possua raízes evolutivas profundas, é extremamente moldável pela cultura. Quando não é útil socialmente, ou quando representa riscos, ele pode desaparecer, assim como acontece em algumas espécies de primatas.

Especialistas afirmam que o beijo é um exemplo perfeito da interação entre biologia e cultura. Ele tem uma base evolutiva antiga, mas é constantemente reconstruído por normas sociais, rituais afetivos e práticas individuais.

A ciência reconhece que grande parte dos beijos humanos nem sequer envolve o contato boca-a-boca, reforçando a ideia de que o comportamento assumiu significados variados ao longo da história e em diferentes contextos.

O que a próxima geração de pesquisas pode revelar

A pesquisa abre caminho para novos estudos sobre o beijo em humanos e outros primatas. Investigadores querem compreender como o gesto se transformou ao longo do tempo, quais mecanismos sensoriais estão envolvidos e quais pressões evolutivas favoreceram sua persistência.

O beijo, antes visto apenas como um símbolo romântico, agora se revela um fascinante marcador da história evolutiva, emocional e social da nossa espécie e de nossos parentes primatas.

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Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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