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Cientistas explicam por que algumas lembranças ficam e outras somem

Por Leticia Florenço
22/12/2025
Em Colunas, Mais Tendências
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Cérebro Envelhecido - Reprodução/iStock

Cérebro Envelhecido - Reprodução/iStock

Todos os dias, o cérebro recebe uma avalanche de estímulos, sons, imagens, cheiros, emoções e pequenos acontecimentos que passam despercebidos. No entanto, apenas uma parte mínima disso se transforma em lembrança duradoura.

O sistema nervoso seleciona o que considera mais relevante para a adaptação, para a aprendizagem e para a sobrevivência. Informações superficiais, repetitivas ou irrelevantes se dissipam com facilidade, evitando sobrecarga mental e permitindo que o cérebro mantenha o foco no que realmente importa.

Entre os critérios dessa seleção, a emoção ocupa um lugar privilegiado. Episódios que despertam medo, alegria intensa, surpresa ou conexão afetiva ativam áreas responsáveis por avaliar a importância do que vivemos.

Nesses momentos, o cérebro interpreta a experiência como significativa e reforça o armazenamento. Para a neuropsicóloga Leninha Wagner, o cérebro utiliza “códigos emocionais e contextuais” para definir o que deve atravessar do registro imediato para a memória estável.

Por isso, lembranças marcadas por sentimentos profundos tendem a resistir ao tempo com muito mais força.

A atenção essencial

Nenhuma memória se fixa sem que haja atenção. Quando estamos concentrados, de fato presentes em uma situação, o cérebro consegue organizar melhor as informações, criando conexões sólidas.

Já em momentos de pressa, ansiedade, uso excessivo de telas ou multitarefa, o processo de codificação falha. A experiência é registrada de forma superficial, fragmentada e, na maioria das vezes, se perde antes de chegar aos estágios posteriores.

Esse é um dos motivos pelos quais muitas lembranças do dia a dia desaparecem rapidamente.

Por que lembranças negativas são mais resistentes

Eventos marcados por dor, estresse ou risco se fixam com mais facilidade porque o organismo libera substâncias que intensificam o registro de cada detalhe. Esse mecanismo tem raízes evolutivas: nossos ancestrais precisavam lembrar de ameaças para sobreviver.

Hoje, isso explica por que memórias ruins permanecem tão nítidas e insistentes. Embora esse sistema já não seja tão necessário contra predadores, ele continua ativo sempre que enfrentamos tensão forte, conflitos emocionais ou situações traumáticas.

A memória que muda cada vez que é acessada

Uma das características mais intrigantes da memória é que ela não é fixa. Sempre que lembramos de um acontecimento, o cérebro “abre” o arquivo e permite ajustes. Informações novas, emoções do momento e percepções atuais se misturam ao registro original.

O psicólogo André Sena Machado explica que essa flexibilidade é uma adaptação da espécie. Em ambientes instáveis, reconstruir lembranças era mais útil do que memorizar detalhes imutáveis. Assim, lembrar é sempre, também, reinterpretar.

Como o cérebro fortalece ou descarta experiências

O destino de cada lembrança depende de etapas internas complexas. Primeiro, ocorre a codificação, que registra a experiência. Depois vem a consolidação, que estabiliza o conteúdo. Em seguida, o armazenamento transfere o material para áreas mais duráveis do cérebro.

Quando a informação não tem emoção, não recebe atenção ou não é reforçada pela repetição, tende a desaparecer naturalmente. O esquecimento, longe de ser um defeito, é uma estratégia altamente eficiente para preservar energia e garantir clareza mental.

Hábitos que favorecem a criação de boas memórias

Para que uma lembrança se torne sólida, o corpo precisa estar em condições adequadas. Dormir bem é fundamental, já que o cérebro organiza e transfere informações durante o sono. A repetição espaçada ajuda a fortalecer conexões neurais, permitindo que o conteúdo seja recuperado com facilidade.

Reduzir a multitarefa, controlar exageros no uso de dispositivos digitais e respeitar limites cognitivos também contribuem para registros mais estáveis. Quanto mais presente e atento você está, mais chances tem de transformar experiências em memórias duradouras.

O desaparecimento de certas memórias não é um acidente, é parte de um sistema altamente inteligente. O cérebro elimina aquilo que não faz diferença para a adaptação ou para o bem-estar. Sem emoção, sem atenção e sem reforço, uma experiência simplesmente não encontra espaço para permanecer.

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Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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