A denúncia recente envolvendo gigantes globais do setor alimentício, como Nestlé e Starbucks (via AmRest na Alemanha), acendeu alertas sobre a persistência de práticas de trabalho análogo à escravidão na cadeia produtiva do café brasileiro.
Investigações realizadas por organizações de defesa dos direitos humanos, incluindo a Coffee Watch, a International Rights Advocates e o Repórter Brasil, apontam graves violações que afetam trabalhadores em diversas regiões do país.
Denúncias e órgãos envolvidos
Segundo reportagem do jornal alemão Deutsche Welle, as ONGs apresentaram queixas formais às autoridades na Alemanha e nos Estados Unidos, pedindo investigação e responsabilização das empresas. Entre as alegações estão:
- Trabalho infantil em plantações de café;
- Tráfico de pessoas;
- Exploração de trabalhadores em condições análogas à escravidão;
- Violação de direitos humanos e trabalhistas em diferentes etapas da cadeia de suprimentos.
As denúncias se concentram em cooperativas brasileiras, como a Cooxupé (MG) e a Cooabriel (ES), que fornecem grãos para grandes empresas globais. As cooperativas, por sua vez, negam práticas ilegais e afirmam seguir protocolos de controle e fiscalização junto a seus cooperados.
Impacto das denúncias internacionais
Em 2025, as organizações protocolaram uma petição na Alfândega dos Estados Unidos (CBP) solicitando a retenção de importações provenientes de fontes suspeitas, além de uma ação civil coletiva contra a Starbucks em nome de trabalhadores resgatados de condições análogas à escravidão.
Na Alemanha, reclamações foram apresentadas à autoridade BAFA com base na Lei de Due Diligence na Cadeia de Suprimentos (LkSG), que responsabiliza grandes empresas por violações de direitos humanos e ambientais, sob risco de multas, sanções e perda de contratos públicos.
A lei entrou em vigor em 2023 e se aplica a companhias com atuação no país europeu.
Casos específicos de exploração
Relatórios investigativos documentam episódios graves. O relatório Behind Starbucks Coffee, elaborado pelo Repórter Brasil, aponta que, em 2022, 17 trabalhadores foram resgatados de condições de trabalho análogas à escravidão na Fazenda Mesas, localizada em Campos Altos, Minas Gerais.
Entre os resgatados estavam adolescentes de 15, 16 e 17 anos.
A Coffee Watch descreve essas práticas como “graves e generalizadas”, destacando que os problemas não se limitam a uma fazenda específica, mas se repetem em diversas propriedades fornecedoras das cooperativas que abastecem marcas globais renomadas.
Reação das empresas
Nestlé: A empresa informou que investiga os casos, afirmou não ter ligação direta com as fazendas citadas e afirmou ter encerrado relações de fornecimento quando constatada não conformidade com seus protocolos de due diligence.
Starbucks: A companhia afirmou ter compromisso com práticas éticas e com o programa de verificação C.A.F.E. Practices. A Starbucks destacou que apenas adquire pequenas quantidades de produtos de cooperativas, sempre de fazendas verificadas.
Cooperativas: A Cooxupé, citada nas denúncias, repudiou o trabalho escravo e informou ter interrompido fornecimentos com fazendas denunciadas, ressaltando que tais casos representam uma fração mínima do total de cooperados.
Consequências
O caso evidencia a complexidade e os desafios do comércio global de produtos agrícolas, em especial o café. Apesar de programas de certificação e fiscalização, violações graves ainda persistem, exigindo maior rigor de empresas multinacionais, fiscalização de governos e mobilização da sociedade civil.
Além disso, os relatos reforçam a necessidade de políticas efetivas de combate ao trabalho infantil e análogo à escravidão, destacando que mesmo marcas de grande prestígio podem se ver envolvidas em práticas ilegais sem um monitoramento contínuo e transparente.





