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Antártida sem gelo revela um cenário que ninguém imagina

Por Leticia Florenço
11/11/2025
Em Colunas, Mais Tendências
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Antártida

Antártida - Reprodução/Unsplash

Quando falamos em Antártida, pensamos automaticamente em uma imensa planície branca e congelada. Porém, o gelo não é o continente, é apenas sua superfície. Quase 98% da Antártida está enterrada sob uma camada de gelo tão espessa que poderia encobrir o Monte Everest.

Se essa cobertura desaparecesse, revelaria um mundo oculto: montanhas, vales profundíssimos, planícies que lembram desertos e regiões inteiras abaixo do nível do mar. É como se existisse um continente secreto, invisível aos nossos olhos, moldado durante milhões de anos e aprisionado sob gelo eterno.

O mapa revolucionário criado pela NASA

Em 2013, a NASA e o British Antarctic Survey deram um passo ousado: usar radares penetrantes, satélites e voos científicos para desenhar a primeira visão real do que havia por baixo da Antártida.

Esse projeto recebeu o nome de Bedmap2, um modelo digital capaz de atravessar virtualmente quilômetros de gelo e revelar a geografia oculta do continente. O que surgiu surpreendeu os cientistas: a Antártida não é plana, mas sim um território acidentado, cheio de elevações, cânions e depressões gigantescas.

A descoberta mais impressionante veio da geleira Byrd, onde se encontra o ponto mais profundo de toda a crosta continental do planeta, 2.870 metros abaixo do nível do mar. É quase como enterrar três Torres Eiffel empilhadas uma em cima da outra, só que viradas para baixo.

A paisagem subterrânea que ninguém esperava

A visão revelada pelo Bedmap2 parece algo tirado de um romance de ficção científica.

Abaixo da camada de gelo, existem cordilheiras do tamanho dos Alpes, cavernas gigantes esculpidas lentamente pelo gelo, desfiladeiros mais profundos do que alguns oceanos costeiros e vales que poderiam acomodar dezenas de cidades. Nada disso tem luz do sol.

É uma paisagem que nunca foi tocada pelo vento, pela chuva ou por qualquer forma de vida. Como descreveu o pesquisador Peter Fretwell, “é uma paisagem complexa e cheia de surpresas”. O mais curioso é que esse relevo oculto influencia diretamente como o gelo se movimenta, o que pode mudar o futuro do planeta.

O gelo está desaparecendo mais rápido do que se imaginava

A revelação do que existe sob a Antártida não é apenas uma curiosidade científica, é uma peça essencial para entender como o derretimento do gelo está progredindo. Com o aumento das temperaturas globais, as geleiras começaram a se deslocar com maior velocidade em direção ao oceano.

Cientistas da NASA explicam que o relevo abaixo do gelo funciona como uma pista: caso o terreno seja íngreme, o gelo corre para o mar mais rapidamente; se houver montanhas subterrâneas, o fluxo diminui.

Nos últimos anos, o continente começou a mostrar sinais alarmantes de instabilidade, com blocos de gelo se partindo e plataformas inteiras perdendo sustentação. Alguns modelos climáticos apontam que regiões da Antártida Ocidental podem entrar em colapso ainda neste século.

Se todo o gelo derretesse, o mundo mudaria para sempre

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A Antártida concentra cerca de 27 milhões de quilômetros cúbicos de gelo. E esse volume não está parado: ele é um reservatório global de água doce. Se todo esse gelo derretesse, o nível do mar subiria aproximadamente 58 metros. Isso não é uma projeção distante de um filme apocalíptico, é matemática pura.

Uma elevação de 58 metros significa que cidades inteiras desapareceriam: Rio de Janeiro, Buenos Aires, Londres, Nova York, Xangai e centenas de outras áreas urbanas seriam engolidas pelo oceano.

Mesmo que o degelo total leve séculos, o processo já está em curso. Cada fração de grau adicionada à média global acelera o derretimento e aumenta o risco para populações costeiras.

O que Bedmap3 vai revelar

O próximo passo da ciência já está em andamento, o Bedmap3. Utilizando radares mais precisos e satélites de última geração, essa nova fase do projeto vai detalhar o movimento do gelo em tempo real, quase como assistir ao continente respirando.

O objetivo é prever com mais precisão o que vai acontecer nas próximas décadas. Saber onde o gelo está afinando, onde está acelerando e quais regiões estão prestes a colapsar permitirá estimar com clareza o impacto na elevação do nível do mar. A ciência está, literalmente, mapeando o futuro da Terra.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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