Um novo estudo conduzido pela Universidade de Nova Gales do Sul (UNSW Sydney), na Austrália, conseguiu explicar de forma inédita por que algumas pessoas com esquizofrenia escutam vozes.
Segundo os pesquisadores, não se trata de imaginação ou falta de controle emocional: o fenômeno ocorre porque o cérebro confunde o próprio pensamento com um som real. A “voz interior”, algo comum a todos nós, perde sua identificação como algo interno e passa a ser interpretada como se viesse de fora.
Uma peça que falha no mecanismo cerebral
Em cérebros saudáveis, existe um mecanismo de previsão. Antes mesmo de produzirmos um som, e isso inclui pensar em uma palavra, o cérebro antecipa o que vai acontecer e diminui a atividade de áreas ligadas à audição.
É como se ele dissesse: “não se assuste, esse som é seu”. Já em pessoas que ouvem vozes, esse sistema não funciona como deveria. O cérebro não reconhece o pensamento como algo originado internamente e reage como se estivesse captando uma conversa externa.
Para investigar essa diferença, os cientistas usaram eletroencefalograma (EEG) em três grupos de voluntários: pessoas com esquizofrenia que relataram vozes na última semana, pacientes diagnosticados mas sem alucinações recentes, e pessoas sem a doença.
Todos ouviam sons simples, como “bah” ou “bih”, enquanto imaginavam pronunciar essas mesmas sílabas mentalmente. Nos participantes sem esquizofrenia, a área auditiva do cérebro reagia menos quando a voz interna coincidia com o som real, mostrando que o cérebro havia previsto aquele estímulo.
Mas, entre os pacientes que tinham ouvido vozes recentemente, o que aconteceu foi o oposto, o cérebro reagiu com mais intensidade, como se estivesse diante de um som inesperado. Para a ciência, essa é uma evidência clara de que a voz interna está sendo interpretada como externa.
Uma teoria antiga, agora confirmada
Há mais de 50 anos, especialistas sugeriram que as alucinações auditivas poderiam ocorrer por falhas nesse sistema de previsão cerebral. Faltavam provas diretas. Agora, o trabalho divulgado na revista Schizophrenia Bulletin traz exatamente isso, um registro mensurável da atividade cerebral que comprova a hipótese.
Para o professor Thomas Whitford, líder do estudo, entender essa diferença é fundamental para desvendar os sintomas mais complexos da esquizofrenia.
Caminhos para diagnósticos e prevenção
Hoje, não existe um exame capaz de diagnosticar a esquizofrenia com precisão. Não há teste de sangue, nem de imagem, nem de laboratório que identifique a doença de forma única. O diagnóstico depende dos relatos do paciente e da avaliação clínica.
Se esse tipo de sinal cerebral puder ser medido de forma prática no futuro, será possível detectar alterações muito antes da manifestação de sintomas graves, permitindo iniciar tratamento precoce e aumentando as chances de controle e qualidade de vida.
Cada descoberta que explica a origem dos sintomas ajuda a combater o estigma, mostrar que a esquizofrenia é uma condição neurológica complexa, e aproximar a sociedade de um olhar mais humano e menos discriminatório.






