Enquanto diversos países discutem a redução da jornada de trabalho semanal para promover qualidade de vida e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, a Grécia segue em uma direção oposta e controversa.
Desde o início de outubro, trabalhadores gregos têm saído às ruas em protesto contra uma proposta do governo que abre brecha para carga horária de até 13 horas por dia.
Os atos ganharam força com greves gerais realizadas no dia 1º e, novamente, nesta terça-feira, 14 de outubro, mobilizando categorias de diferentes setores e paralisando serviços em todo o país.
Moradores desse país estão lutando contra jornada de trabalho de 13 horas
A proposta, apresentada pelo governo conservador liderado pelo primeiro-ministro Kyriakos Mitsotakis, prevê a legalização da jornada de trabalho estendida para um mesmo empregador, sob a justificativa de que a medida será opcional e válida por no máximo 37 dias ao ano.
A ministra do Trabalho e Previdência Social, Niki Kerameos, defende que essa mudança visa atender tanto às necessidades de empresas quanto aos desejos de trabalhadores que já acumulam mais de um emprego e, segundo ela, poderiam se beneficiar da centralização da carga horária em um único contratante.
A realidade, no entanto, tem se mostrado bem diferente do discurso oficial das autoridades. Sindicatos e especialistas alertam que, na prática, essa “opcionalidade” dificilmente existirá.
Isso porque, em um mercado de trabalho já marcado pela precariedade e pelo alto índice de desemprego, a pressão sobre o trabalhador pode transformar a escolha em imposição.
Para as organizações sindicais, a proposta representa um retrocesso que ameaça direitos conquistados há décadas. Os trabalhadores que se negarem a trabalhar 13 horas por dia podem ser demitidos, o que na prática aumenta o poder do empregador e não deixa escolha para o empregado.
A Confederação Geral dos Trabalhadores Gregos (GSEE), que representa cerca de 2,5 milhões de empregados do setor privado, denuncia que a medida institucionaliza abusos já praticados em diversas empresas e intensifica a sobrecarga sobre uma população que já lidera o ranking europeu de horas trabalhadas por ano.
Jornada de trabalho na Grécia já é a maior da Europa, mas salários são os menores
Segundo dados da Eurostat, a Grécia registra mais de 1.880 horas anuais de trabalho por trabalhador, bem acima da média da União Europeia. Ainda assim, os salários continuam entre os mais baixos do bloco, e o poder de compra dos gregos está cerca de 30% abaixo da média europeia.
Muitos trabalhadores dependem de dois empregos para manter suas famílias, um sinal claro de que o problema central que deveria ser enfrentado pelo governo não é a carga horária insuficiente, mas a baixa remuneração e o alto custo de vida.
Especialistas em relações trabalhistas apontam que a ampliação da jornada tende a gerar efeitos negativos sobre a produtividade, a saúde física e mental dos empregados, e até mesmo sobre a qualidade dos serviços prestados.
Vale lembrar que, apesar da Grécia ter a maior jornada de trabalho da Europa, a produtividade é a menor, o que, segundo os sindicatos, poderia estar ocorrendo por conta do cansaço dos trabalhadores, e aumentar a jornada pode agravar esse quadro.
Além disso, medidas como controle de jornada via aplicativo e a possibilidade de redistribuir férias de forma unilateral pelas empresas estão sendo vistas como mecanismos de controle excessivo, mascarados de “flexibilização”.
Protestos na Grécia devem continuar, dizem sindicatos
Os protestos contra a jornada de trabalho de 13 horas devem continuar na Grécia nos próximos dias, impulsionados por um sentimento de esgotamento e indignação.
Para muitos gregos, a tentativa do governo de empurrar uma reforma trabalhista que ignora as reais necessidades da população é apenas mais uma demonstração de desconexão com a realidade.
Enquanto a maioria dos países avança rumo a jornadas mais humanas, a Grécia parece caminhar no sentido contrário, e os trabalhadores não estão dispostos a aceitar isso em silêncio.





