Nos últimos anos, aplicativos de transporte e delivery se consolidaram como parte essencial do cotidiano urbano no Brasil. Uber, 99, iFood, Rappi e Loggi oferecem facilidade para os consumidores, mas será que seus trabalhadores recebem uma remuneração justa?
A terceira edição da pesquisa Fairwork Brasil lança luz sobre essa questão, revelando uma realidade preocupante: nenhum dos principais apps analisados oferece condições mínimas de trabalho decente, conceito definido pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) que inclui salário adequado, jornada digna, contratos claros, boas condições de trabalho e representação dos trabalhadores.
Metodologia da pesquisa
O estudo foi conduzido por universidades brasileiras em parceria com a Universidade de Oxford e o Centro de Ciências Sociais de Berlim.
As plataformas foram avaliadas com base em cinco princípios essenciais: remuneração justa, condições de trabalho, contratos claros, gestão transparente e representação do trabalhador. Cada critério pode receber até dois pontos: o primeiro avalia requisitos básicos, e o segundo, exigências mais avançadas.
A pontuação máxima possível é 10.
Resultados
De acordo com a pesquisa, iFood, Uber, 99, Rappi e Loggi zeraram todos os cinco quesitos. No quesito remuneração, para marcar pontos, a empresa precisaria garantir que o trabalhador não receba menos que o salário mínimo líquido, mesmo após custos e descontos.
Para o segundo ponto, seria necessário pagar o salário considerado ideal pelo Dieese (R$ 7.274,43 em julho de 2025). Somente InDrive (transporte) e Superprof (educação) atingiram um ponto cada, garantindo ao menos o salário mínimo líquido.
Entretanto, essas pontuações não refletem um cenário totalmente satisfatório, pois na Superprof a baixa demanda limita a renda, e na InDrive motoristas frequentemente aceitam corridas mais baratas em momentos de menor procura.
Jornadas longas e baixos ganhos
O estudo destaca que muitos trabalhadores enfrentam jornadas excessivas, ganhos reduzidos por hora e dificuldade em cobrir custos básicos.
Há relatos de atrasos e retenção parcial de pagamentos, taxas pouco transparentes, alterações de valores após a conclusão do serviço (Uber e Loggi), gorjetas não recebidas (iFood), promoções não repassadas (Ame Flash) e risco de não recebimento em corridas pagas em dinheiro (99).
Além disso, os trabalhadores arcam com combustível, manutenção, seguros e multas, sem respaldo suficiente em casos de furto, roubo ou acidentes. Benefícios, quando existentes, são considerados insuficientes.
Segundo Julice Salvagni, coordenadora do projeto Fairwork e professora da UFRGS, “as remunerações estão cada vez mais baixas, e as empresas se desresponsabilizam cada vez mais. Há uma falta de direitos laborais e sociais básicos, deixando as pessoas à própria sorte”.
Crédito fácil e endividamento
Outra consequência apontada pela pesquisa é o endividamento dos trabalhadores, impulsionado por serviços de crédito oferecidos pelas plataformas, como Banco Didio (Uber), iFood Pago e empréstimos na InDrive.
O relatório alerta que esses serviços estimulam a contratação de dívidas para cobrir custos do trabalho, criando um ciclo de dependência financeira.






