O Brasil, conhecido por sua ousadia em inovação financeira, como mostrou com o PIX, está prestes a dar um passo importante, mas cauteloso, em seu projeto de moeda digital.
O Banco Central anunciou que o Drex, apresentado em 2023, será lançado em 2026 sem blockchain nem tokenização, ao menos inicialmente. Essa decisão marca uma mudança de estratégia que redefine os objetivos da iniciativa e coloca o país na linha de frente de uma experimentação pragmática no setor financeiro.
Mudança de foco
Em vez de uma moeda digital de varejo, acessível diretamente pelo público, o Drex de 2026 terá papel invisível para a população, atuando como um mecanismo de reconciliação de gravames.
Isso significa que a nova infraestrutura permitirá verificar, de forma integrada, se ativos usados como garantia de crédito já estão vinculados a outros compromissos. Bancos, corretoras e cartórios serão os principais beneficiados, com ganhos em velocidade, segurança e custo de processos de crédito.
Wagner Martin, VP da Veritran no Brasil, afirma que a unificação dos dados de gravames trará eficiência operacional significativa e prepara o terreno para futuras implementações mais disruptivas, incluindo automação via contratos inteligentes e tokenização.
Primeiro o básico, depois o avançado
O cronograma revisado divide o projeto em duas fases:
- Curto prazo (2026): Uso de tecnologias tradicionais, sem blockchain, garantindo funcionalidade e confiabilidade.
- Futuro indefinido: Retomada de blockchain e contratos inteligentes, aproximando a moeda digital de sua concepção original, mais inclusiva e automatizada.
A Hyperledger Besu, rede permissionada inicialmente escolhida pelo BC, mostrou-se complexa e difícil de adequar à privacidade e programabilidade exigidas. O recuo pragmático evita riscos desnecessários e prioriza entregas reais ao mercado.
Cenário global
O Brasil se junta a poucos países que efetivamente lançaram moedas digitais de varejo: Bahamas, Jamaica e Nigéria. A maior parte do mundo ainda estuda ou testa projetos semelhantes. Nos Estados Unidos, por exemplo, a iniciativa foi proibida oficialmente durante o governo Trump.
Enquanto isso, a América Latina vive um boom de criptoativos, com alta de 42,5% no último ano, segundo a Chainalysis.
O Brasil ocupa o 9º lugar mundial em adoção, motivado mais pela praticidade do que pela especulação: proteção contra inflação, recebimento de pagamentos internacionais e facilidade frente à burocracia bancária.
No curto prazo, o Drex deve se consolidar como uma “moeda digital de bastidor”, útil para o sistema financeiro e invisível para a população. O desafio será manter o interesse público e preparar o caminho para a próxima fase, que poderá finalmente trazer a promessa de inovação ao bolso do cidadão.






