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Nome católico que deixou de ser registrado há 70 anos

Por Leticia Florenço
17/08/2025
Em Colunas, Mais Tendências
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Certidão de nascimento - Reprodução

Certidão de nascimento - Reprodução

Os nomes que damos aos nossos filhos são muito mais do que simples etiquetas para identificação. Eles são um espelho das tendências culturais, crenças, valores e até modismos de cada época.

Assim como a moda ou as expressões linguísticas, os nomes próprios também mudam conforme o contexto histórico, as influências religiosas e as aspirações das famílias.

Na Argentina, por exemplo, alguns nomes que foram muito populares no passado hoje se tornaram praticamente desconhecidos, caindo no esquecimento ou até mesmo deixando de ser usados oficialmente.

Um desses nomes Angustias, que não aparece registrado em nenhum nascimento há mais de sete décadas.

Origem e significado do nome Angustias

O nome Angustias tem origem latina, derivado da palavra angustia, que significa “dor profunda”, “angústia” ou “aflição”. Em termos religiosos, ele está ligado diretamente à devoção católica à Nossa Senhora das Angústias, uma das muitas invocações da Virgem Maria.

Essa figura representa a dor extrema que Maria sentiu ao acompanhar o sofrimento, a paixão e a morte de seu filho, Jesus Cristo. Portanto, o nome carrega uma carga espiritual muito forte, refletindo fé e sofrimento juntos.

Historicamente, nomes que remetiam ao sofrimento, penitência ou provações eram comuns entre famílias profundamente religiosas, que viam nesses termos um caminho de humildade, devoção e entrega.

Angustias, como nome, simbolizava a identificação com a dor redentora e o sacrifício, conceitos centrais para a espiritualidade católica tradicional.

Mudança cultural na escolha dos nomes

A partir do século XX, houve uma grande transformação nos costumes em várias partes do mundo, incluindo a Argentina.

Com o avanço da modernidade, a urbanização e a influência de novas ideias, as escolhas de nomes próprios começaram a refletir mais os desejos pessoais, a estética e a busca por significados positivos e alegres.

Nomes carregados de significado triste, dramático ou relacionado ao sofrimento foram progressivamente deixados de lado. As famílias passaram a preferir nomes que evocassem felicidade, beleza, esperança e até modernidade, afastando-se da antiga tradição de nomes com forte carga espiritual ou de provação.

Por que o nome Angustias desapareceu dos registros?

Apesar da origem religiosa, o significado literal do nome, “dor” e “angústia”, acabou sendo percebido como algo negativo demais para a escolha dos pais nas últimas décadas.

Nomes com conotação sofrida começaram a ser evitados para recém-nascidos, pois os pais queriam associar a vida dos filhos a sentimentos mais leves e positivos.

A sociedade argentina, como muitas outras, foi passando por processos de secularização, mudança nos valores familiares e até na forma como se percebe a religião. O uso de nomes estritamente ligados a conceitos de sofrimento caiu, acompanhando essa transformação cultural.

O resultado dessa mudança cultural foi que Angustias não foi registrado em nascimentos no país há mais de 70 anos, segundo dados oficiais do RENAPER (Registro Nacional de las Personas). Assim, o nome praticamente desapareceu do imaginário coletivo e do registro civil.

Outros nomes que caíram

O caso de Angustias não é isolado. Outro nome que desapareceu dos registros argentinos há mais de um século é Lesbia, último registrado em 1924.

Embora seu significado seja diferente, possivelmente relacionado à ilha de Lesbos e à poetisa Safo, conhecida por suas poesias sobre o amor entre mulheres, Lesbia também entrou na lista de nomes esquecidos.

Esses exemplos ilustram como o fenômeno do desaparecimento de nomes próprios reflete diretamente a evolução cultural e social da população.

O desaparecimento de nomes como Angustias representa o movimento da sociedade em direção a novos paradigmas, escolhas e perspectivas sobre identidade e fé.

Entender esses processos nos ajuda a valorizar a riqueza da diversidade cultural e a compreender como o passado dialoga com o presente por meio de algo tão íntimo quanto o nome de uma pessoa.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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