A crise financeira da Americanas, que abalou o mercado brasileiro no início de 2023, segue revelando desdobramentos surpreendentes.
Um dos episódios mais recentes envolve a delação do ex-diretor financeiro da companhia, Fábio Abrate, que trouxe à tona a possibilidade de uma estratégia planejada para lidar com o colapso antes mesmo da divulgação oficial do escândalo.
Esta informação contrasta com as versões apresentadas pelos principais acionistas bilionários e alimenta novas discussões sobre a responsabilidade e condução do caso.
Contexto da crise e delação
A crise financeira da Americanas veio à tona em 11 de janeiro de 2023, quando um fato relevante expôs inconsistências contábeis bilionárias, causando enorme repercussão no mercado.
No entanto, o depoimento de Fábio Abrate, obtido pelo Ministério Público Federal (MPF) e divulgado somente em 2025, sugere que havia uma preparação prévia para mitigar os efeitos da crise.
Abrate afirma que a diretoria tinha um plano inicial para negociar diretamente com os bancos e aplicar baixas contábeis, uma prática que poderia reduzir os custos para os acionistas controladores, mas que não chegou a ser executada plenamente, levando à adoção do plano B com a recuperação judicial.
Baixa contábil
A baixa contábil consiste em retirar ativos que perderam valor do balanço da empresa, reconhecendo uma despesa ou perda financeira.
Abrate apontou que a Americanas pretendia usar esse mecanismo, semelhante a casos anteriores das empresas Kraft Heinz e ALL, que também envolveram os bilionários Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles.
Embora este recurso seja comum, sua aplicação em larga escala, sem transparência, pode mascarar problemas financeiros graves, o que teria sido o foco da estratégia inicial da Americanas para evitar maiores danos à imagem e ao patrimônio.
O papel de Sérgio Rial e o “Plano B” da recuperação judicial
Sérgio Rial, que assumiu a presidência da Americanas em 2 de janeiro de 2023, renunciou no mesmo dia em que o fato relevante foi divulgado. Segundo Abrate, Rial foi deslocado para um papel de assessor dos acionistas bilionários para gerir a crise.
Abrate relata que Rial teria apresentado os casos das baixas contábeis da Kraft e da ALL para justificar a estratégia perante investidores, tentando minimizar o impacto da crise.
No entanto, a resistência dos bancos a esse plano forçou a ativação do plano B, a recuperação judicial, considerada a alternativa para garantir a continuidade da empresa.
Contestações e negação dos acionistas
O trio de bilionários controladores da Americanas negou veementemente qualquer envolvimento prévio no esquema e classificou a delação de Abrate como ilações infundadas e estratégias para desviar a atenção dos próprios malfeitos da antiga diretoria.
Além disso, ressaltaram que investiram bilhões para salvar a companhia durante a recuperação judicial, o que, segundo eles, seria contraditório se tivessem planejado ou aprovado um cenário de baixa contábil bilionária.
Implicações para a governança corporativa
O caso expõe fragilidades importantes na governança da Americanas, onde mecanismos contábeis foram supostamente manipulados para mascarar a real situação financeira da empresa. A delação sugere ainda um ambiente em que a transparência e a prestação de contas aos acionistas e ao mercado teriam sido comprometidas.
As investigações do MPF e da Polícia Federal indicam que a antiga diretoria atuou para ocultar informações, o que põe em xeque os controles internos e a fiscalização exercida pelo conselho de administração.
A crise da Americanas reforça a importância de auditorias rigorosas, fiscalização constante e a necessidade de regulação mais efetiva para evitar fraudes contábeis que podem abalar a confiança do mercado e prejudicar investidores, funcionários e a economia como um todo.
A operação trouxe também debates sobre o uso de instrumentos financeiros como o contrato de VPC e risco sacado, que, embora legítimos, podem ser manipulados para mascarar resultados financeiros.






