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O corpo pode revelar sinais de Parkinson muito antes do diagnóstico

Por Leticia Florenço
22/07/2025
Em Colunas, Mais Tendências
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Parkinson - Reprodução/iStock

Parkinson - Reprodução/iStock

Durante muito tempo, a doença de Parkinson foi vista quase exclusivamente como um distúrbio do movimento. Tremores, rigidez muscular, lentidão dos gestos, esses são os sinais clássicos que vêm à mente quando se fala na condição.

Mas e se o corpo desse sinais anos antes, silenciosos, invisíveis aos olhos e à consciência, porém mensuráveis na pele? Um novo estudo britânico revela que o Parkinson pode deixar rastros químicos muito antes de qualquer sintoma motor aparecer, e isso pode mudar completamente a forma como a doença é diagnosticada e tratada.

A descoberta que começou com o olfato de uma esposa

A ciência, muitas vezes, avança impulsionada por histórias singulares. Uma dessas é a de Joy Milne, uma enfermeira aposentada da Escócia que relatou perceber um cheiro diferente no marido anos antes de ele receber o diagnóstico de Parkinson.

Era um odor sutil, mas persistente, que ela descreveu como “almiscarado” e “metálico”. Seu relato, inicialmente visto com ceticismo, despertou o interesse de pesquisadores da Universidade de Manchester, no Reino Unido.

O que parecia intuição ou sensibilidade exagerada revelou-se um pressentimento fisiológico muito real: a pele do marido de Joy já emitia compostos químicos alterados, consequência precoce da doença que só seria confirmada anos depois.

Sebo

O foco da pesquisa britânica recaiu sobre o sebo, substância oleosa produzida por glândulas na pele. Essa secreção, abundante em áreas como a parte superior das costas, serve como meio ideal para armazenar compostos orgânicos voláteis (COVs), moléculas que evaporam facilmente e que podem ser detectadas por meio de técnicas sensíveis de análise química.

Através de uma combinação de cromatografia gasosa e espectrometria de massa, os cientistas analisaram amostras de sebo de 83 pessoas, incluindo pacientes com Parkinson, indivíduos saudáveis e pessoas com distúrbio do sono REM, condição que aumenta o risco de desenvolver a doença.

O resultado foi surpreendente, 613 compostos identificados, dos quais 55 estavam associados aos sinais iniciais do Parkinson, antes mesmo de qualquer tremor surgir. Outros 38 compostos estavam relacionados à progressão da doença ao longo de três anos.

Diagnóstico sete anos antes

Detectar o Parkinson até sete anos antes do diagnóstico clínico não é apenas um feito técnico, é uma virada de paradigma. Significa abrir uma janela de tempo inédita para intervenções precoces, que poderiam atrasar, ou quem sabe até impedir, o aparecimento dos sintomas motores debilitantes.

Essa antecipação é especialmente relevante considerando que, quando o Parkinson é diagnosticado hoje, mais de 50% dos neurônios dopaminérgicos já estão danificados ou mortos. Identificar a doença ainda em estágio silencioso pode permitir abordagens preventivas, personalizadas e menos invasivas.

Distúrbio do sono REM

Entre os grupos analisados, estava um conjunto de pessoas com distúrbio comportamental do sono REM. Nessa condição, o indivíduo “representa” seus sonhos fisicamente, chutando, gritando ou se movendo durante a fase do sono em que os músculos deveriam estar paralisados.

Estudos anteriores já haviam mostrado que até 80% das pessoas com esse distúrbio desenvolvem Parkinson ou doenças relacionadas em uma década. A identificação de COVs alterados nesse grupo indica que o sebo pode ser um biomarcador ainda mais precoce, ajudando a prever quem tem mais chance de desenvolver a doença.

Quando a pele vira espelho do cérebro

É curioso pensar que o cérebro deixa impressões digitais na pele. O estudo reforça uma noção cada vez mais difundida na ciência médica: o corpo é um sistema interligado, onde os sinais de uma doença neurológica podem surgir em órgãos periféricos, antes de afetar a função cognitiva ou motora.

Essa visão sistêmica pode ajudar também no entendimento de outras doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e esclerose múltipla. O sebo pode ser apenas o começo.

O futuro do diagnóstico pode estar no toque

A perspectiva de que um simples exame de pele possa um dia compor o check-up anual revoluciona a medicina diagnóstica.

De procedimento de alta complexidade e custo elevado, o diagnóstico do Parkinson poderá migrar para o campo da prevenção comunitária, tornando-se algo tão simples quanto medir a pressão ou fazer um exame de sangue.

A pele, muitas vezes negligenciada como órgão de alerta, pode ser reabilitada como ferramenta poderosa no rastreio precoce de distúrbios cerebrais. Basta ouvir, ou neste caso, cheirar e analisar, o que ela tem a dizer.

A ciência deu mais um passo rumo ao invisível. E quem prestar atenção a esses sinais poderá mudar o rumo da própria saúde, com anos de antecedência.

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Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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