A Embraer é mais que uma fabricante de aviões: é um símbolo da capacidade tecnológica e industrial do Brasil. De um projeto militar nascido no interior paulista a uma potência da aviação mundial, a trajetória da Embraer revela como ambição, engenharia e estratégia podem transformar um país periférico em protagonista de um dos setores mais exigentes do planeta.
No fim da década de 1960, o Brasil não tinha tradição na indústria aeronáutica. Ainda assim, engenheiros do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), liderados por Ozires Silva, vislumbraram uma solução para integrar regiões isoladas por meio de uma aviação regional robusta e acessível.
O avião Bandeirante, nascido em 1968, foi o ponto de partida de uma revolução silenciosa. A fundação oficial da Embraer em 1969 materializou esse sonho em escala industrial.
Avanço tecnológico
Durante as décadas seguintes, a empresa acumulou sucessos: o agrícola Ipanema, o jato militar Xavante, o executivo Xingu e o já lendário EMB 312 Tucano. Cada um desses projetos ampliou sua presença internacional e comprovou a versatilidade da engenharia brasileira.
O EMB 120 Brasília, lançado nos anos 1980, conquistou os EUA, um prenúncio do que viria a ser uma relação longa e estratégica com o mercado norte-americano.
A quase queda e a reinvenção
Apesar dos avanços, a Embraer quase naufragou no início dos anos 1990, vítima de uma crise financeira que exigiu privatização urgente. Em 1994, a empresa foi vendida com uma cláusula especial, o governo brasileiro manteve uma “golden share”, um poder de veto sobre decisões estratégicas.
Essa jogada preservou a soberania em áreas sensíveis, mesmo com o capital privado no controle.
A virada veio com o desenvolvimento do jato regional ERJ-145, um sucesso comercial global. Era o início de uma nova era.
E-jets e a liderança no mercado de até 150 assentos
Com o avanço dos E-jets nos anos 2000, a Embraer consolidou-se como a terceira maior fabricante de jatos comerciais do mundo, atrás apenas da Boeing e da Airbus.
Sua especialidade, aviões com até 150 assentos, ideais para voos regionais. A demanda cresceu, e a Embraer respondeu com soluções cada vez mais sofisticadas e eficientes, como a família E2, elogiada por sua eficiência de combustível e tecnologia embarcada.
Hoje, a Embraer está em mais de 100 países. Sua atuação vai muito além da aviação comercial. Fabrica jatos executivos de luxo (como os Phenom e Praetor), aviões agrícolas, modelos militares de alta performance (como o Super Tucano e o cargueiro KC-390) e ainda mantém centros de produção em países estratégicos como EUA, Portugal e México.
Tarifas de Trump
Agora, em 2025, a Embraer encara outro desafio. A decisão do ex-presidente Donald Trump de impor tarifas de 50% sobre produtos brasileiros nos EUA ameaça diretamente seu maior mercado.
Com 45% de suas vendas de jatos comerciais e 70% dos executivos destinadas aos americanos, os impactos podem ser significativos: até R$ 2 bilhões em tarifas neste ano e R$ 20 bilhões até o fim da década.
Analistas acreditam que empresas aéreas dos EUA farão pressão contra as tarifas, pois dependem das entregas da Embraer. Isso revela um dado essencial: o mercado aeronáutico é global, interdependente, e qualquer tentativa de isolamento tem alto custo.
Por isso, mesmo em meio a tensões políticas, a Embraer continua sendo uma peça insubstituível no tabuleiro da aviação mundial.






