Com mais de 1,5 milhão de anos, um núcleo de gelo extraído das profundezas da Antártida foi transportado cuidadosamente até o British Antarctic Survey, em Cambridge.
O cilindro vítreo é o mais antigo já coletado pela ciência, e representa uma cápsula do tempo capaz de revelar segredos do clima da Terra em um passado extremamente remoto.
Uma jornada complexa e milionária até a Europa
A coleta envolveu quatro longas temporadas de perfuração no extremo leste antártico. Foram retirados 2,8 quilômetros de gelo, um feito que exigiu logística internacional, transporte em navios refrigerados e equipamentos altamente especializados.
As amostras foram armazenadas em cavernas de gelo e depois transportadas por vans até o laboratório britânico.
O núcleo de gelo preserva partículas microscópicas presas no momento da formação do gelo, incluindo poeira, cinzas vulcânicas e diatomáceas, algas marinhas microscópicas.
Essas partículas ajudam a reconstruir uma linha do tempo de eventos climáticos, como mudanças de temperatura, níveis do mar, direção dos ventos e atividade vulcânica.
Tecnologia de ponta para decifrar o invisível
Os cientistas usarão espectrômetros de massas com plasma indutivamente acoplado (ICPMS) para identificar elementos químicos e isótopos presentes nas amostras. O processo de análise inclui o derretimento controlado do gelo durante sete semanas, liberando substâncias que foram aprisionadas por milênios.
O estudo pode ajudar a elucidar um dos maiores enigmas climáticos: a misteriosa mudança nos ciclos glaciais da Terra ocorrida entre 800 mil e 1,2 milhão de anos atrás.
Nesse período, a frequência das eras glaciais mudou de 41 mil para 100 mil anos, uma transição ainda sem explicação definitiva, mas fundamental para compreender o comportamento climático da Terra.
Dados do passado para prever o impacto do futuro
As concentrações de dióxido de carbono encontradas no gelo antigo podem mostrar como o planeta reagiu a picos naturais de gases do efeito estufa em eras anteriores.
Esses dados são fundamentais para comparações com o cenário atual, em que a elevação de CO₂ é provocada por atividades humanas e tem acelerado processos climáticos de forma inédita.
O que os cientistas esperam encontrar
Além de composições químicas complexas, o gelo pode indicar retrações de calotas polares, elevações no nível do mar e padrões de precipitação ao longo de centenas de milhares de anos. A esperança é que essas informações ajudem a entender os pontos de inflexão que podem tornar certas mudanças irreversíveis.
Ao analisar esse pedaço congelado da história da Terra, os cientistas buscam um caminho para evitar que os erros do presente se tornem a catástrofe do amanhã.






