Uma descoberta recente surpreendeu a comunidade médica ao revelar que algumas bactérias intestinais, até então inofensivas ou pouco estudadas, podem estar diretamente envolvidas na formação de placas que entopem as artérias, um processo conhecido como aterosclerose.
O mais alarmante: esse efeito pode ocorrer mesmo em pessoas sem colesterol alto, desafiando o entendimento tradicional sobre as causas da doença.
As bactérias que ninguém via e que podem entupir suas artérias
A revelação vem de um estudo conduzido pelo Centro Nacional de Pesquisa Cardiovascular Carlos III (CNIC), em Madri, publicado na revista científica Nature.
Os pesquisadores identificaram uma molécula chamada propionato de imidazol (ImP), produzida por certas bactérias presentes na flora intestinal.
Eles perceberam que essa substância está fortemente associada ao desenvolvimento de aterosclerose, mesmo em indivíduos sem os fatores de risco clássicos, como dieta rica em gordura ou níveis elevados de colesterol.
A investigação começou em testes com camundongos e revelou que a simples introdução da molécula ImP já era suficiente para provocar a formação de placas nas artérias dos animais.
Isso acendeu o alerta para a possível atuação direta dessa substância no desencadeamento da doença.
Para verificar se o fenômeno também se manifestava em humanos, os cientistas analisaram amostras de plasma de centenas de voluntários saudáveis que participavam de um estudo de longo prazo sobre doenças cardiovasculares.
Os exames mostraram que pessoas com aterosclerose subclínica — ou seja, ainda sem sintomas aparentes — tinham concentrações significativamente mais altas de ImP no sangue.
A associação entre a presença da molécula causada pelas bactérias e a extensão da doença foi clara: quanto mais ImP circulando, mais avançada estava a obstrução das artérias.
Descoberta sobre a ação das bactérias pode levar a solução
Além disso, o estudo identificou o mecanismo por trás desse processo. A molécula ativa respostas inflamatórias por meio de células do sistema imune chamadas mieloides, que contribuem para o acúmulo de placas.
Curiosamente, os pesquisadores também testaram uma substância capaz de bloquear esse efeito — batizada de ImP-I1R — e conseguiram impedir o avanço da aterosclerose em camundongos, mesmo sob dietas ricas em gordura.
Embora o tratamento ainda esteja em fase experimental, os cientistas acreditam que essa nova rota biológica pode levar ao desenvolvimento de terapias mais eficazes e personalizadas contra a aterosclerose, mirando não apenas o colesterol, mas também o que se passa no intestino.






