Uma reportagem publicada pelo portal UOL revelou que a inadimplência nas primeiras parcelas do crédito consignado privado atingiu patamares alarmantes: entre 10% e 18% da carteira de algumas instituições financeiras.
O dado gerou preocupação entre operadores do setor, já que esses níveis estão muito acima do esperado para uma modalidade de crédito com desconto em folha, que tradicionalmente apresenta baixo risco de calote.
A surpresa com os números levou o mercado a buscar explicações, e ainda não há consenso sobre as causas.
10% dos contratantes de consignado estão inadimplentes
Segundo o levantamento, parte significativa da inadimplência do consignado pode não estar ligada, de fato, à incapacidade de pagamento dos tomadores dos empréstimos, mas sim a falhas no sistema de repasse.
O modelo atual exige que os empregadores descontem os valores das parcelas diretamente dos salários dos funcionários e transfiram esses recursos às instituições financeiras.
No entanto, empresas têm relatado dificuldades técnicas na integração com o sistema do eSocial, o que estaria provocando erros de processamento.
Segundo a reportagem, há casos em que os valores são descontados do trabalhador, mas não são repassados aos bancos. Em outros, o repasse é feito de forma coletiva, sem identificação clara dos beneficiários, o que impede a vinculação correta dos pagamentos.
Em situações mais graves, há registro de descontos duplicados ou ausência total de repasse, mesmo com o desconto em folha efetivado.
As instituições financeiras, sem meios de verificar com precisão o que ocorreu em cada caso, classificam muitos desses episódios como “inadimplência operacional”.
Possível inadimplência no consignado pode afetar todo o setor
Apesar do caráter técnico de boa parte dos problemas, o impacto para o setor é real.
Com a insegurança sobre a efetividade dos repasses, as instituições financeiras se veem obrigadas a elevar os juros, mesmo em uma linha de crédito tradicionalmente mais acessível.
As taxas, que variavam em torno de 2,9% na versão anterior do consignado privado, hoje chegam a até 7%, dependendo do perfil do cliente e da instituição.
O programa, lançado em março, já movimentou cerca de R$ 19 bilhões em empréstimos para quase 3 milhões de trabalhadores formais, incluindo os de pequenas empresas e domésticos com carteira assinada.
A expectativa é de que, com o amadurecimento do sistema, os erros operacionais diminuam, a inadimplência real seja melhor mensurada e as condições de crédito voltem a melhorar. Até lá, o setor segue em alerta.






