Durante o 20º Congresso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), o ministro da Previdência Social, Wolney Queiroz, anunciou publicamente uma apuração interna contra a Crefisa.
O foco está nas denúncias de condutas abusivas na concessão de empréstimos consignados a beneficiários do INSS, muitos deles idosos e em situação de vulnerabilidade social.
O alerta partiu da seccional paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP), que formalizou as reclamações e provocou o início de uma investigação mais ampla.
Alerta máximo
O processo, segundo o ministro, foi diretamente encaminhado ao setor de inteligência da pasta, que agora trabalha em conjunto com a força-tarefa previdenciária.
A apuração não se limita à atuação de uma única empresa, o pente-fino abrange todo o sistema de crédito consignado oferecido a segurados da Previdência Social. Trata-se de uma medida que pode gerar consequências estruturais no setor bancário, exigindo mais controle, transparência e fiscalização.
Pregão de 2024
Em outubro de 2024, a Crefisa venceu 25 dos 26 lotes do Pregão nº 90.005/2024, assegurando um protagonismo quase absoluto no pagamento de benefícios previdenciários até 2029.
Esse domínio levantou suspeitas e acendeu alertas sobre possível formação de monopólio temporário. Segundo a OAB-SP, a ausência de concorrência efetiva fere princípios básicos da administração pública, como a livre concorrência e a impessoalidade nas contratações.
Denúncias em série
As acusações recebidas pelo ministério incluem supostas práticas como:
- Empréstimos não solicitados
- Atendimento precário
- Restrição indevida ao acesso a valores
- Falta de transparência nas contratações
- Obrigatoriedade disfarçada de abertura de conta no Banco Crefisa
Segundo a OAB-SP, tais práticas comprometem a integridade do serviço prestado e expõem os beneficiários, principalmente os mais vulneráveis, a riscos financeiros e emocionais.
Reações institucionais
A representação da OAB-SP foi compartilhada com diversas entidades, incluindo:
- INSS
- Dataprev
- Controladoria-Geral da União (CGU)
- Banco Central
- Federação Brasileira de Bancos (Febraban)
Embora a Febraban tenha informado que a Crefisa não faz parte de seu quadro associativo, a empresa integra a Autorregulação do Crédito Consignado, sistema criado com a ABBC (Associação Brasileira de Bancos) em 2020.
O que diz a Crefisa
A Crefisa respondeu que já enviou esclarecimentos formais ao INSS e negou todas as acusações. A empresa defende que:
- Não exige abertura de contas para recebimento de benefícios
- Apenas 5% dos atendidos têm conta corrente no banco
- Seus sistemas de análise são rigorosos e estruturados
- Houve mais de 1,7 milhão de recusas de crédito entre janeiro e maio de 2025
A instituição afirma que segue os critérios estabelecidos no edital do pregão e que sua vitória nos lances foi legítima. A empresa alega compromisso com a concessão responsável de crédito e nega irregularidades na operação da folha de pagamento.
Além da Crefisa
Apesar da Crefisa estar no centro das atenções, o ministro Wolney Queiroz deixou claro que a auditoria é sistêmica. A ação pode abrir espaço para a criação de um marco regulatório mais rígido para o setor, com regras mais claras sobre transparência, concorrência e proteção ao consumidor.
Um movimento necessário para reequilibrar a relação entre instituições financeiras e os milhões de brasileiros que dependem de seus benefícios previdenciários para sobreviver.






