A construção de uma nova ferrovia que ligará o Brasil ao Peru pode se tornar um dos marcos mais estratégicos da integração logística da América do Sul nas próximas décadas.
Com potencial para alterar profundamente as rotas comerciais entre os oceanos Atlântico e Pacífico, o chamado corredor ferroviário bioceânico unirá, por trilhos, o interior do Brasil ao recém-inaugurado porto de Chancay, na costa peruana.
Acordo histórico entre Brasil e China
O pontapé oficial foi dado no dia 7 de julho, em Brasília, com a assinatura de um memorando entre o Ministério dos Transportes do Brasil e o China Railway Economic and Planning Research Institute.
O documento autoriza o início de estudos conjuntos para avaliar a viabilidade do empreendimento. A estatal brasileira Infra S.A. liderará os trabalhos ao lado do instituto chinês, com foco na integração da malha ferroviária já existente e na análise dos impactos e custos da nova obra.
De Ilhéus a Chancay
A proposta é ambiciosa. Ela parte da atual Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), que liga Ilhéus (BA) a Mara Rosa (GO). De lá, conecta-se à Ferrovia de Integração Centro-Oeste (Fico), estendendo-se até Lucas do Rio Verde (MT), onde começa a nova etapa rumo ao Pacífico.
Esse trecho cortará o norte da Bolívia, Rondônia e o Acre, atingindo a fronteira com o Peru. A ferrovia termina no porto de Chancay, um moderno complexo logístico chinês, situado a apenas 70 km de Lima.
Chancay
A escolha do destino final da ferrovia não é aleatória. Inaugurado recentemente com investimentos chineses, o porto de Chancay foi projetado para se tornar um centro logístico de alto padrão na costa do Pacífico.
Com tecnologia de ponta e capacidade para receber navios de grande calado, ele se torna uma porta de saída estratégica para exportações brasileiras rumo à Ásia, especialmente China, Japão e Coreia do Sul, encurtando o tempo e o custo das viagens, em comparação com as rotas via Canal do Panamá ou portos do Sudeste brasileiro.
Rotas de integração Sul-Americana
A Ferrovia Bioceânica integra um plano mais amplo: as Rotas de Integração Sul-Americana. Lançado em 2023 pelo Ministério do Planejamento, o programa visa articular diferentes modais de transporte, rodoviário, ferroviário, hidroviário e portuário, em áreas fronteiriças, de forma a fortalecer os laços comerciais entre países vizinhos.
A estratégia conta com apoio do Novo PAC, do Plano de Transformação Ecológica e do programa Nova Indústria Brasil, também frutos do recente alinhamento diplomático entre Brasil e China.
Multimodalidade
A integração entre ferrovias como Fiol, Fico e FNS (Ferrovia Norte-Sul) será fundamental para o projeto. Isso permitirá que mercadorias saiam do coração do agronegócio brasileiro, como Mato Grosso, e cheguem ao Pacífico, conectadas a centros produtores e consumidores internacionais.
Além disso, a infraestrutura já existente, como as rodovias BR-364 e BR-317 no Brasil e a Irsa Sur no Peru, oferece um suporte terrestre contínuo, reforçando o caráter multimodal da proposta.
Implicações econômicas e ambientais
A ferrovia bioceânica não é apenas uma obra de engenharia; ela representa uma nova lógica econômica. Ao facilitar o escoamento de grãos, minérios e produtos manufaturados do Brasil, a expectativa é reduzir os custos logísticos, aumentar a competitividade e diversificar os destinos das exportações.
Do ponto de vista ambiental, o modal ferroviário oferece vantagens expressivas frente ao rodoviário: menor emissão de CO₂, mais eficiência energética e menor impacto nas áreas de preservação.
BRICS
A Declaração Final da Reunião de Líderes do Brics, realizada no Rio de Janeiro, sublinhou a importância de obras como a Ferrovia Bioceânica. O documento defendeu a ampliação da conectividade entre países do Sul Global, respeitando a soberania dos Estados e promovendo a sustentabilidade.
A aposta em transporte ferroviário está alinhada ao esforço dos Brics em construir soluções de infraestrutura próprias, menos dependentes dos fluxos comerciais dominados por potências ocidentais.
Desafios
Apesar do entusiasmo, o projeto enfrenta desafios relevantes, desde questões técnicas, como trechos de difícil engenharia e áreas ambientalmente sensíveis, até obstáculos políticos e financeiros.
Se concretizado, o corredor ferroviário entre Brasil e Peru pode inaugurar uma nova era de integração sul-americana. Além de melhorar os caminhos do comércio exterior brasileiro, o projeto favorece o desenvolvimento de regiões historicamente isoladas, como o oeste do Mato Grosso e o Acre.






