Após mais de um ano de buscas em uma das regiões mais inóspitas e delicadas do Pantanal sul-mato-grossense, um evento raro reacendeu as esperanças de conservação da biodiversidade brasileira, o flagrante de um casal de harpias em pleno processo de reprodução.
O ninho, localizado na região do Maciço do Urucum, em Corumbá (MS), foi descoberto por uma expedição coordenada pelo biólogo e guia de ecoturismo Gabriel de Oliveira, em parceria com a Icterus Ecoturismo, o projeto Harpia Brasil e a Saua Consultoria Ambiental.
Harpia no Pantanal
A presença da Harpia harpyja, uma das maiores aves de rapina do mundo, não é comum no Pantanal. Ela é mais frequentemente associada às matas densas da Amazônia e da Mata Atlântica. Seu avistamento e, mais ainda, a descoberta de um ninho ativo são eventos que desafiam décadas de registros científicos na região.
Com envergadura que pode atingir até 2,20 metros e garras do tamanho de mãos humanas, as harpias são predadoras de topo na cadeia alimentar, desempenhando papel essencial no equilíbrio ecológico. Sua presença indica não apenas a riqueza da fauna local, mas também o estado relativo de conservação da área.
Maciço do Urucum
O achado se deu em uma área de tensão ambiental: o Maciço do Urucum, uma formação geológica de alta relevância para a mineração no Brasil.
A descoberta do ninho de harpia reacende discussões sobre a coexistência entre exploração econômica e conservação da natureza. Proteger a área se tornou uma urgência, tanto para a ciência quanto para a preservação da espécie.
O rastro de um predador
Tudo começou com um olhar atento. Em abril de 2024, a bióloga Yasmin Pereira avistou uma harpia sobrevoando a região. Foi o ponto de partida para a nova fase da busca de Gabriel de Oliveira, que já investigava a possibilidade da presença dessas aves no local desde 2013.
Em junho deste ano, durante uma expedição com turistas, ele filmou uma harpia carregando os restos de um macaco-bugio, um forte indício de atividade reprodutiva, já que a fêmea tende a alimentar os filhotes ou se preparar para a postura dos ovos com presas robustas.
A partir disso, a equipe intensificou as buscas e, no dia 12 de julho, encontrou o ninho monumental, construído em uma árvore de grande porte. Segundo Gabriel, o momento do encontro foi “de arrepiar” e “um dos mais emocionantes da vida”.
Conservação e turismo de natureza
O achado mostra como o turismo de observação da fauna pode ser um aliado poderoso da ciência e da conservação. A empresa Icterus, de Gabriel, promove expedições voltadas para a observação de aves e da vida silvestre, o que permite registrar fenômenos como esse sem interferir diretamente na natureza.
A presença de turistas curiosos e engajados amplia a vigilância ambiental e favorece a divulgação da importância da proteção de espécies ameaçadas.
A importância de proteger e monitorar
O monitoramento do ninho deverá continuar ao longo dos próximos meses. Ainda não se sabe se há ovos ou filhotes presentes, mas tudo indica que a reprodução está em curso. O período reprodutivo das harpias normalmente começa nesta época do ano, e a construção do ninho profundo e robusto é um sinal promissor.
O episódio reforça a necessidade de ampliar as áreas protegidas e implementar medidas mais rigorosas de fiscalização ambiental, especialmente em zonas onde há pressão do agronegócio e da mineração. Sem habitat, não há futuro para a harpia, e, por extensão, para muitas outras espécies.
Próximos passos
As imagens captadas e os dados reunidos serão compartilhados com redes de conservação nacional, incluindo universidades e centros de pesquisa que estudam a harpia. O objetivo é utilizar a descoberta para reforçar políticas públicas de preservação do Pantanal e de suas zonas de transição.






