Tudo começou em março de 2018, quando chuvas intensas e a cheia do Rio Pomba colocaram em alerta a estabilidade da Ponte do Pereira, na Rodovia MGC-265, entre Mercês e Rio Pomba, na Zona da Mata mineira.
Mesmo com sinais claros de desgaste e risco estrutural, nenhuma ação foi tomada de forma eficaz pelo poder público. O que era apenas um alerta se concretizou em tragédia: em 2020, a estrutura da ponte desabou por completo, em meio à pandemia de Covid-19.
Sete anos de improviso, poeira e indignação
A resposta emergencial foi a construção de uma ponte improvisada, de madeira, ao lado da antiga. O desvio feito com cascalho, sem qualquer camada de asfalto, tornou-se um símbolo do abandono.
A estrutura precária permitia apenas o trânsito em sentido único, e os congestionamentos chegavam a durar até doze horas em dias de chuva. A vida dos moradores, comerciantes, produtores rurais e motoristas que passavam pelo local virou um inferno diário.
As consequências não foram apenas logísticas ou econômicas, elas afetaram também a saúde das famílias locais. Problemas respiratórios se tornaram parte da rotina, especialmente entre os idosos.
Efeitos na economia local e regional
A ponte não era apenas uma travessia: ela era um elo vital de conexão entre regiões produtivas e centros urbanos. Sua queda afetou diretamente o escoamento de produtos agrícolas, moveleiros e industriais, especialmente das cidades de Ubá, Juiz de Fora, Rio Pomba, Goianá e outras que integram a Zona da Mata.
Comerciantes como Luciano Antônio de Paiva, dono de um pequeno comércio nas proximidades da ponte, relatam prejuízos contínuos: “Essa ponte caiu e acabou com a logística de toda a região. Foi um caos.”
Além disso, trabalhadores que precisam se deslocar diariamente entre cidades vizinhas se viram reféns do improviso e do atraso.
As consultas e procedimentos médicos foram frequentemente perdidos, especialmente quando o tráfego era interrompido nas temporadas de chuva, uma realidade alarmante em uma região com forte dependência de centros urbanos como Barbacena e Juiz de Fora para atendimento de saúde.
Demora da obra
A demora na resposta governamental chama atenção. O edital de licitação para reconstrução da ponte só foi publicado em setembro de 2023 — mais de três anos após o desabamento. E mesmo assim, as obras só começaram efetivamente em 2024.
Agora, em julho de 2025, o asfaltamento está em fase final, e a previsão oficial do Departamento de Estradas de Rodagem de Minas Gerais (DER-MG) é de entrega total da nova estrutura apenas em setembro deste ano.
Enquanto isso, a travessia continuou sendo feita na estrutura improvisada por mais de dois mil e quinhentos dias. A nova ponte, com 43 metros de comprimento por 10 de largura, finalmente começa a tomar forma, mas não sem deixar cicatrizes na memória coletiva dos moradores.
Foram sete anos de abandono, perdas econômicas, riscos de vida, doenças respiratórias e isolamento. Sete anos em que o tempo parou para milhares de pessoas enquanto os governos adiavam decisões.
A nova estrutura, embora necessária e aguardada, não apaga os anos de omissão e sofrimento. O desafio agora é garantir que a história da Ponte do Pereira não se repita em outros pontos negligenciados do estado.






