A crescente entrada de smartphones vindo do Paraguai pelas fronteiras brasileiras transformou-se em um fenômeno de grande impacto econômico, social e de segurança pública.
Dados recentes da Receita Federal revelam que, apenas nos primeiros cinco meses de 2025, foram apreendidos celulares avaliados em mais de R$ 223 milhões, um salto de quase 24% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Estima-se que, diariamente, cerca de 10 mil celulares cruzem ilegalmente a fronteira do Paraguai rumo ao Brasil. Considerando um valor médio de US$ 200 por aparelho, o valor movimentado nos primeiros 150 dias do ano ultrapassa R$ 1,1 bilhão.
Importações paraguaias
O Paraguai, com seus pouco mais de 6 milhões de habitantes, registrou em 2023 a importação de US$ 3 bilhões em smartphones, uma alta de 212% em relação a 2022. O volume é incompatível com o consumo interno e aponta o óbvio: a maior parte desses aparelhos tem destino certo no Brasil.
Cidades como Ciudad del Este, Pedro Juan Caballero e Salto del Guairá funcionam como entrepostos do comércio paralelo.
A preferência por celulares como item de contrabando não é casual. Eles são fáceis de camuflar, transportar e revender, além de terem alto valor agregado mesmo em pequenas quantidades. Uma única mochila com cinco aparelhos já representa milhares de reais em valor de mercado.
Criatividade criminosa para enganar a fiscalização
A engenharia do crime surpreende. Aparelhos escondidos dentro de robôs de limpeza, capacetes, caixas de som, fundos falsos de carros, motos e até caminhões de empresas públicas.
Um único motoqueiro foi flagrado com R$ 414 mil em celulares. Em outro caso, 2 mil celulares estavam ocultos em barris de chope, representando uma carga de quase R$ 3 milhões.
Motocicletas
Diariamente, 20 mil motos atravessam a Ponte da Amizade, que liga Foz do Iguaçu a Ciudad del Este. Em 2025, 82 motocicletas com fundo falso foram apreendidas. E cada uma pode ter cruzado a fronteira 80 vezes antes de ser interceptada.
A estimativa é que, juntas, tenham introduzido 75 mil celulares no território nacional apenas nos primeiros cinco meses do ano.
O presidente do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (IDESF), Luciano Barros, alerta para os riscos ocultos aos consumidores. Muitos aparelhos não têm homologação da Anatel, podendo conter malwares ou falhas graves de segurança, além de não oferecerem garantias ou suporte técnico.
Além disso, a prática prejudica o varejo formal, as receitas fiscais e a indústria nacional.
Contrabando, descaminho ou crime transnacional?
Embora tecnicamente o transporte de smartphones sem homologação seja enquadrado como descaminho, a dimensão do problema leva especialistas a considerarem como contrabando sofisticado.
A operação ilegal já é considerada uma estratégia de financiamento do crime organizado, que utiliza os lucros para alimentar outras frentes ilícitas, como o tráfico de drogas e armas.
O retrato das apreensões
- Brasil (jan-mai 2025): R$ 223,9 milhões em celulares apreendidos (alta de 23,9%)
- Paraná (jan-mai 2025): R$ 103,8 milhões (alta de 10,6%)
- Foz do Iguaçu (jan-mai 2025): R$ 49,3 milhões (alta de 7,8%)
Mesmo com o aumento das apreensões, estima-se que apenas 3% dos celulares que entram pela fronteira são interceptados, um dado que expõe a limitação operacional das forças de fiscalização.
É um sinal de desequilíbrio estrutural, de falhas na fiscalização, de fragilidade diplomática e de presença forte do crime organizado nas rotas de fronteira.





