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Bilhões de pessoas já forma infectadas por parasita que muda comportamento humano

Por Leticia Florenço
09/07/2025
Em Colunas, Mais Tendências
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Toxoplasma gondii é causador da toxoplasmose em humanos
Divulgação/Unicamp

Toxoplasma gondii é causador da toxoplasmose em humanos Divulgação/Unicamp

Um protozoário invisível a olho nu, presente no corpo de até um terço da população mundial, está provocando uma revolução silenciosa na forma como compreendemos o comportamento humano.

O Toxoplasma gondii, conhecido pela medicina há décadas como um parasita “adormecido” e inofensivo, hoje é alvo de uma nova e inquietante linha de pesquisas: a de que ele pode estar influenciando, sem que saibamos, nossas decisões, emoções e até transtornos mentais.

O que é o Toxoplasma gondii e por que ele é tão comum

Trata-se de um parasita unicelular com um ciclo de vida complexo e sofisticado. Seu hospedeiro definitivo são os felinos, em especial os gatos, nos quais ele se reproduz sexualmente. Para completar esse ciclo, o protozoário depende de hospedeiros intermediários, como roedores, aves e humanos.

A infecção em humanos pode ocorrer de várias formas: por meio do consumo de carne crua ou malcozida, ingestão de frutas e legumes mal higienizados, contato com fezes de gatos infectados, ou até por transfusão de sangue e transplantes.

De acordo com a OMS, cerca de 2 bilhões de pessoas já foram infectadas no mundo, muitas sem sequer saber.

Alterações no comportamento de ratos chamam atenção de cientistas

O primeiro sinal de que o Toxoplasma gondii poderia afetar o comportamento surgiu a partir da observação de ratos infectados.

Em vez de temerem o cheiro de urina de gato, como fariam normalmente, os roedores demonstravam atração pelo odor felino, um comportamento suicida que facilitava sua captura e, por consequência, a continuidade do ciclo do parasita.

Isso despertou a pergunta: se ele pode manipular o cérebro de um rato, o que estaria fazendo em nós?

Mudanças de personalidade em humanos

Nos anos 2000, o parasitologista Jaroslav Flegr, da Universidade Carolina de Praga, publicou estudos revelando mudanças comportamentais em humanos infectados. Segundo suas pesquisas:

  • Homens infectados demonstravam maior impulsividade, irritabilidade e propensão a correr riscos.
  • Mulheres infectadas apresentavam maior empatia e adesão a normas sociais.

Essas descobertas foram recebidas com ceticismo no início, mas despertaram o interesse de neurologistas, psiquiatras e cientistas comportamentais em todo o mundo.

Possível ligação com transtornos mentais graves

Pesquisas posteriores ampliaram o escopo da investigação. Um artigo publicado no Schizophrenia Bulletin (2012) associou a toxoplasmose latente a um aumento do risco de distúrbios psicóticos, incluindo esquizofrenia.

Em 2016, uma meta-análise publicada na Acta Psychiatrica Scandinavica reforçou essa correlação, apontando ligações com depressão, bipolaridade e até suicídio.

No entanto, os cientistas enfatizam que correlação não significa causalidade. É possível que indivíduos com predisposição genética a certos transtornos sejam mais suscetíveis à infecção, e não o contrário.

Como o parasita atua no cérebro humano

O grande enigma da ciência hoje é entender como o Toxoplasma gondii interage com o cérebro humano. Pesquisas indicam que ele pode:

  • Atravessar a barreira hematoencefálica, que normalmente protege o cérebro de agentes externos;
  • Formar cistos em áreas cerebrais associadas ao medo, emoção e tomada de decisão, como a amígdala;
  • Alterar os níveis de dopamina, neurotransmissor responsável pela motivação, prazer e recompensas. O parasita possui genes que produzem enzimas que influenciam diretamente a síntese de dopamina.

Esses fatores explicariam, ao menos parcialmente, as mudanças emocionais e comportamentais associadas à infecção.

Toxoplasmose latente

Na maior parte dos casos, a infecção é assintomática e permanece latente por toda a vida. No entanto, ela pode se tornar perigosa em:

  • Pessoas imunodeprimidas (como pacientes com AIDS ou em tratamento quimioterápico);
  • Gestantes, já que o parasita pode atravessar a placenta e causar danos graves ao feto, como cegueira, epilepsia ou até morte neonatal.

A prevenção é fundamental, principalmente para esses grupos.

Formas de contágio e como se proteger

Apesar da ampla disseminação, há maneiras eficazes de evitar a infecção:

  • Cozinhar bem carnes, especialmente suínas e bovinas;
  • Lavar frutas, legumes e verduras com atenção;
  • Usar luvas ao manusear solo ou areia, especialmente de gatos;
  • Trocar diariamente a caixa de areia dos gatos e lavá-la com água fervente;
  • Evitar carnes cruas e ovos crus durante a gravidez.

Exames laboratoriais podem identificar a presença de anticorpos contra o Toxoplasma gondii e confirmar a exposição prévia.

Saber que bilhões de pessoas convivem com esse protozoário reforça a importância de investir em pesquisas sobre infecções silenciosas e seus efeitos de longo prazo.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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