A imagem da Amazônia como um paraíso verde e intocado ainda domina o imaginário popular internacional. Mas essa visão começa a ser desconstruída com a série fotográfica “Secas na Amazônia”, do fotógrafo peruano-mexicano Musuk Nolte, em exposição na mostra do World Press Photo 2025, na CAIXA Cultural do Rio de Janeiro.
O trabalho, que denuncia os efeitos das mudanças climáticas na maior floresta tropical do mundo, foi finalista na categoria “Foto do Ano” do prestigiado concurso internacional de fotojornalismo.
Aos 37 anos, Nolte se debruça há cinco anos sobre o impacto da estiagem no Norte do Brasil. Entre as imagens mais contundentes estão registros da bacia do Rio Solimões quase vazia, comunidades ribeirinhas isoladas e paisagens que mais lembram desertos do que a tradicional floresta amazônica.
A imagem que ganhou destaque mundial foi feita no rio Tarumã, em Manaus, num dos dias mais secos da história recente da região.
“Foi difícil acreditar que eu ainda estava no centro da Amazônia. O calor era extremo, e em alguns momentos parecia que eu estava no litoral, diante de um cenário árido”, relembra Nolte.
O fotógrafo explica que a jornada até a imagem final exigiu esforço físico e paciência: a expedição de Iquitos, no Peru, até Manaus durou cerca de um mês, com longos trechos fluviais em que barqueiros se recusavam a seguir viagem com medo de encalhes, devido ao nível crítico das águas.
Uma floresta em crise
A série “Secas na Amazônia” retrata uma realidade que, segundo o fotógrafo, ainda é pouco conhecida fora do Brasil. “Quando cheguei à cerimônia do World Press Photo em Amsterdã, muitas pessoas se surpreenderam. Elas não sabiam que a floresta podia parecer um deserto”, afirma.
O júri do concurso destacou o impacto visual das imagens, elogiando a forma como Nolte equilibra o escopo geográfico do problema com a experiência humana das populações locais.
Além de Nolte, fotógrafos de mais de 30 países participam da exposição com trabalhos sobre temas urgentes como conflitos armados, migração, questões de gênero e, claro, a crise climática. Ao todo, são 42 projetos vencedores que estarão disponíveis para visitação no Rio até o dia 20 de julho.
Olhar pessoal, impacto coletivo
O interesse de Musuk Nolte pela Amazônia vem de berço. Filho de uma antropóloga, ele passou parte da infância acompanhando a mãe em viagens à floresta. Essa vivência moldou seu olhar sensível e respeitoso com as comunidades ribeirinhas e povos indígenas.
“A formação da minha mãe me fez desenvolver uma postura consciente. Não estou apenas atrás de imagens bonitas, mas de narrativas verdadeiras e profundas”, explica.
Em Manaus, Nolte contou com o apoio do fotógrafo brasileiro Raphael Alves, que já possuía laços com as comunidades retratadas e facilitou o acesso do colega estrangeiro. “Esse tipo de colaboração é essencial, porque evita que a fotografia se torne invasiva ou superficial”, destaca.
Entre a arte e a denúncia
A metodologia de trabalho de Nolte une fotografia documental e artística. Ele utiliza câmeras tradicionais para capturar momentos íntimos e drones para evidenciar a escala geográfica das mudanças.
“O roteiro inicial é sempre provisório. A realidade nos obriga a mudar de direção. Se seguimos apenas um plano fixo, acabamos presos a estereótipos de como representar a Amazônia”, afirma.
Nolte ressalta ainda os perigos da profissão, especialmente ao circular por áreas sensíveis da floresta. “Mesmo sem estar cobrindo crimes ambientais diretamente, o simples fato de carregar uma câmera torna o fotógrafo uma figura suspeita. O risco é real”, alerta.
A imagem como instrumento de mudança
Apesar das dificuldades, o fotógrafo acredita que seu trabalho pode provocar reflexões e mudanças concretas. “A fotografia sozinha não resolve nada. Mas ela é uma ferramenta poderosa para informar e sensibilizar. Ajuda as pessoas a entenderem por que certos temas devem estar no centro das decisões políticas e sociais.”
Musuk Nolte já realizou outros projetos em território brasileiro e garante que pretende retornar. Seu envolvimento com as questões socioambientais da região, afirma, vai além de uma cobertura pontual.
“A crise climática é uma narrativa longa. Exige presença constante, escuta e respeito. E eu quero continuar acompanhando isso de perto.”
Com a série “Secas na Amazônia”, Nolte não apenas documenta uma tragédia silenciosa, ele a torna visível para o mundo. E ao fazer isso, transforma o olhar de quem vê, desafia certezas e amplia o entendimento global sobre a urgência climática que atinge o coração da floresta brasileira.





