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Produtos de grife podem esconder couro de desmatamento na Amazônia

Por Leticia Florenço
27/06/2025
Em Colunas, Mais Tendências
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Amazônia - Reprodução/iStock

Amazônia - Reprodução/iStock

Enquanto bolsas e acessórios de couro desfilam nas vitrines mais sofisticadas da Europa, a floresta amazônica sangra. Um relatório da ONG inglesa Earthsight revela uma conexão chocante entre grifes mundialmente famosas e o desmatamento ilegal no Brasil.

A pesquisa traça um caminho oculto, ligando o couro de gado criado em áreas invadidas, como a Terra Indígena Apyterewa, no Pará, a produtos de luxo vendidos por marcas como Coach, Fendi, Hugo Boss, Chanel e Gucci.

Do pasto ilegal à vitrine europeia

A rota do couro brasileiro é longa e complexa. O gado, muitas vezes criado ilegalmente em terras indígenas e áreas embargadas, passa por diversas mãos antes de ter sua origem “esquentada”. O frigorífico Frigol, por exemplo, foi citado como destino de mais de 17 mil cabeças de gado de origem duvidosa entre 2020 e 2023.

O couro extraído, então, segue para exportadoras como a Durlicouros e, depois, para curtumes na Itália, onde é transformado em matéria-prima para marcas de renome internacional.

“Lavagem de gado”

O relatório revela que frigoríficos não conseguem rastrear de forma eficaz os fornecedores indiretos, aqueles que vendem gado aos fornecedores diretos. Essa falha permite a prática conhecida como “lavagem de gado”, onde animais criados em áreas ilegais são transferidos para fazendas regularizadas antes do abate.

A ausência de rastreabilidade plena cria um cenário propício à camuflagem ambiental e mina os compromissos éticos das empresas envolvidas.

Certificação sob suspeita

Marcas e curtumes frequentemente recorrem ao selo Leather Working Group (LWG) como garantia de responsabilidade ambiental.

No entanto, a certificação, reconhecida por empresas como Durlicouros, Conceria Cristina e Faeda, não exige rastreamento até as fazendas de origem, ignorando o elo mais vulnerável da cadeia: o território onde o gado foi criado.

Para a Earthsight, esse tipo de certificação oferece uma falsa sensação de segurança tanto para as marcas quanto para os consumidores.

Respostas corporativas

As empresas citadas reagiram de forma variada. Algumas, como Hugo Boss e Coach, alegaram que seus couros não têm ligação com os casos apontados. O grupo Kering, dono da Gucci e Balenciaga, garantiu que não utiliza matéria-prima brasileira.

Já Fendi, Chloe e Chanel preferiram não responder. A Earthsight insiste: sem rastreabilidade rigorosa, é impossível ter certeza da real origem do couro.

O estado do Pará, epicentro da denúncia e da extração de couro investigada, será também o palco da COP 30, em novembro de 2025. O contraste entre os discursos ambientais da conferência e a realidade exposta pelo relatório joga luz sobre a urgência de medidas mais eficazes de controle, fiscalização e transparência.

Nova lei europeia

Prevista para entrar em vigor no final de 2025, a nova legislação da União Europeia veta a entrada de produtos ligados ao desmatamento. No entanto, há uma tentativa nos bastidores da indústria de retirar o couro do escopo da lei.

Pesquisadores e ambientalistas alertam: enfraquecer a regulamentação pode anular os avanços no combate à destruição florestal.

Rastreabilidade como solução e desafio

Para mudar esse cenário, o Brasil precisa implementar um sistema de rastreamento público e completo, que integre dados ambientais com as Guias de Trânsito Animal.

O controle já avançou no setor de carne, mas no setor de couro, o apagão informativo ainda é profundo. A Earthsight propõe que marcas de alto padrão usem seu peso financeiro e reputacional para liderar uma transformação ética no setor.

O couro brasileiro, envolto em opacidade e ilegalidade, desafia a indústria a provar que é possível conciliar moda, ética e sustentabilidade.

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Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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