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Cientistas estão há 10 anos sem saber de onde vem sinais sob o gelo da Antártida

Por Leticia Florenço
25/06/2025
Em Colunas, Mais Tendências
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Antártida

Antártida - Reprodução/Unsplash

Há mais de dez anos, cientistas se deparam com sinais anômalos que parecem vir de dentro da Terra, mais precisamente debaixo do gelo da Antártida. Apesar dos inúmeros esforços de equipes internacionais, a origem dessas ondas de rádio permanece um mistério.

Tudo começou com o projeto ANITA (Antena Transiente Impulsiva Antártica), uma iniciativa da NASA que pretendia detectar neutrinos de altíssima energia, partículas praticamente intangíveis que cruzam o cosmos e atravessam matéria sem sofrer alterações.

O que são os neutrinos e por que são importantes?

Neutrinos são partículas subatômicas que praticamente não interagem com a matéria. Gerados de eventos cósmicos extremos, como explosões de supernovas ou buracos negros, eles percorrem o universo quase sem obstáculos.

Detectar essas partículas permite rastrear a origem dos raios cósmicos, as mais energéticas partículas conhecidas. Com isso, os cientistas esperam entender fenômenos fundamentais do universo, como a formação de galáxias e a dinâmica dos buracos negros.

O que o ANITA detectou?

Durante os voos realizados entre 2006 e 2016, o ANITA captou pulsos de rádio ascendentes vindos do gelo antártico em ângulos muito acentuados, cerca de 30° abaixo da superfície.

De acordo com a física atual, isso não deveria acontecer. As partículas que criariam tais sinais não poderiam atravessar a Terra em trajetórias tão profundas sem serem absorvidas.

O Modelo Padrão da Física de Partículas, base da ciência moderna, não prevê esse tipo de comportamento. Se os sinais fossem de neutrinos, como inicialmente se cogitou, eles teriam sido absorvidos pela crosta terrestre antes de serem detectados.

Isso fez surgir especulações sobre nova física, teorias que vão além do Modelo Padrão, como partículas exóticas ou interações ainda desconhecidas.

Tentativas de confirmação

Após os registros do ANITA, o Observatório Pierre Auger, na Argentina, e o experimento IceCube, instalado no gelo profundo da Antártida, tentaram identificar eventos semelhantes.

Ambos os experimentos possuem alta sensibilidade e utilizam métodos diferentes de detecção de partículas cósmicas. No entanto, nenhum conseguiu confirmar os sinais observados pelo ANITA.

Para os cientistas, isso não significa necessariamente uma descoberta revolucionária, mas reforça a necessidade de mais dados e análises. A hipótese de que os eventos sejam apenas flutuações estatísticas ou ruídos de fundo ainda está em aberto.

A possível hipótese dos neutrinos Tau

Uma das ideias levantadas é que os sinais tenham sido causados por neutrinos tau, que têm a capacidade de se regenerar após interações com matéria. Mas há um problema: mesmo esses neutrinos só conseguiriam atravessar a Terra em ângulos muito rasos.

Os sinais detectados estavam em ângulos muito mais íngremes, tornando essa hipótese improvável.

O que vem a seguir

Com o mistério ainda sem solução, os cientistas estão apostando em uma nova geração de instrumentos. Em dezembro, será lançado o PUEO (Payload for Ultra-High Energy Observations), uma sonda muito mais sensível que o ANITA.

A expectativa é que, durante o sobrevoo de um mês sobre a Antártida, o PUEO consiga registrar múltiplos eventos e fornecer dados mais robustos sobre as origens dos sinais anômalos.

Se o PUEO detectar os mesmos sinais e eles continuarem inexplicáveis pelas leis atuais da física, os cientistas estarão diante de uma possível revolução científica. Seria a evidência de que o universo guarda fenômenos ainda desconhecidos e que a física de partículas precisa ser ampliada.

Alternativamente, se os novos dados mostrarem que os sinais tinham origem em fenômenos já compreendidos, o mistério estará solucionado, mas a jornada terá sido igualmente valiosa.

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Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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