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Descoberta de urnas funerárias e rituais após queda de árvore na Amazônia

Por Leticia Florenço
16/06/2025
Em Colunas, Mais Tendências
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Descoberta de urnas funerárias e rituais na Amazônia - Reprodução

Descoberta de urnas funerárias e rituais na Amazônia - Reprodução

No início de maio, a queda de uma árvore gigante em uma área de várzea no município de Fonte Boa, no Amazonas, revelou sete urnas funerárias indígenas enterradas a cerca de 40 centímetros de profundidade sob as raízes da árvore.

As urnas, com até 90 centímetros de diâmetro, continham ossos humanos, além de restos de peixes e tartarugas, indícios de práticas rituais e funerárias antigas.

O local da descoberta, conhecido como Lago do Cochila, trata-se de uma ilha artificial construída por povos ancestrais na região do Médio Solimões. A existência dessas ilhas, erguidas com terra e cerâmica, demonstra técnicas sofisticadas de engenharia usadas para resistir às cheias constantes dos rios amazônicos.

Moradias e plataformas para atividades cotidianas eram construídas sobre esses terrenos elevados, indicando uma ocupação permanente e organizada.

Trabalho arqueológico em parceria com a comunidade local

A investigação das urnas conta com a participação ativa da comunidade ribeirinha de São Lázaro do Arumandubinha, fundamental para o acesso e o sucesso da escavação, que só pode ser realizada por vias fluviais.

Walfredo Cerqueira, manejador de pirarucu, foi quem inicialmente identificou as urnas, acionando o padre local e, em seguida, arqueólogos do Instituto Mamirauá. Essa cooperação ilustra a importância do conhecimento tradicional aliado à ciência moderna.

Georgea Holanda Urnas funerárias embaixo de árvore na Amazônia
Divulgação/Geórgea Holanda/MCTI

Urnas de cerâmicas

As urnas apresentam características inéditas para a Amazônia, seu grande volume e a ausência de tampas cerâmicas visíveis sugerem que eram seladas com materiais orgânicos já decompostos.

Além disso, a equipe precisou construir uma plataforma de madeira e cipós para realizar a escavação em solo alagadiço, mostrando os desafios técnicos para estudar sítios arqueológicos em ambientes tão singulares.

Ilhas artificiais

As ilhas onde as urnas foram encontradas foram construídas com solo e fragmentos cerâmicos retirados de outras regiões, apontando para um conhecimento avançado em engenharia e manejo ambiental.

Essa técnica permitia a criação de espaços habitáveis mesmo em áreas frequentemente alagadas, confirmando uma intensa ocupação e adaptação ao território amazônico.

Análises e descobertas científicas: Novos Horizontes Cerâmicos

Após o resgate, as urnas foram transportadas para o Instituto Mamirauá, em Tefé, para análises detalhadas. Os primeiros resultados indicam o uso de argila esverdeada rara e faixas vermelhas, elementos não associados a tradições cerâmicas já conhecidas, como a Polícroma Amazônica.

Isso sugere a existência de um horizonte cerâmico ainda não documentado no Alto Solimões, abrindo caminho para novos estudos e revisões históricas.

Até então, a arqueologia considerava as várzeas amazônicas como áreas de uso temporário pelos povos antigos, principalmente durante períodos secos.

A descoberta das urnas e das ilhas artificiais comprova que essas regiões foram ocupadas permanentemente, com estruturas que permitiam a sobrevivência, a realização de rituais e a agricultura ao longo do ano.

A equipe do Instituto Mamirauá planeja continuar a investigação em outras áreas do Lago do Cochila, especialmente em árvores recentemente tombadas, na esperança de encontrar mais artefatos e ampliar o conhecimento sobre a cultura e história dos povos ancestrais da Amazônia.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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